Resenha de “A Cronologia da Água” (2025), de Kristen Stewart
- Nefertiti Beckman

- 9 de abr.
- 3 min de leitura

Dentre os elementos fundamentais presentes na natureza, a água é o que provoca a sensação singular de estar suspenso no tempo. O ato de estar dentro d’água concebe uma proposta para abandonar o corpóreo. Em “A Cronologia da Água”, adaptação da obra literária autobiográfica de Lidia Yuknavitch, Kristen Stewart marca sua estreia como diretora e mergulha em instrumentos sensoriais para contar uma história marcada pelos efeitos do trauma familiar e a busca pela liberdade feminina.
Montado em cinco partes, em consonância com os capítulos do registro original, o longa propõe-se a narrar a vida da jovem escritora norte-americana Lidia Yuknavitch, interpretada por Imogen Poots. Criada em um contexto familiar abusivo, Lidia encontra na natação profissional e na escrita de ficção um meio de sobrevivência. Ao apresentar a literatura como um dos pontos centrais de diálogo com a trama, “A Cronologia da Água” adota um modo não linear em seu desenvolvimento. Composto por cenas quebradas por lapsos de memórias, as quais representam, em sua maioria, situações da infância de Lidia, o filme induz reflexões acerca do conceito de memórias como elementos gerados a partir de uma construção, definindo-as como narrativas — passíveis de adulteração e confusão mental por nós mesmos a qualquer instante.
No decorrer da história, somos guiados pela voz carregada por vulnerabilidade de Yuknavitch para escutar os relatos de uma vida perfurada pelo trauma do abuso sexual do próprio pai e as consequências provocadas no interior do indíviduo, como a emergência do caráter autodestrutivo. Essas características passam a ser evidentes na segunda parte da obra, dedicada a narrar os momentos da vida universitária de Lidia, marcando a transição da saída de um lar abusivo e autoritário para as primeiras experiências da protagonista como jovem adulta. Na faculdade, a personagem explora a liberdade de ter o controle sobre si mesma, o que antes era exercido pela figura paterna. Suas ações, sua mente e, principalmente, seu corpo, são expostos à noção de poder que carregam.
Mas, o que poderia ser algo positivo e levá-la a um futuro promissor, logo se transforma em um ciclo autodestrutivo marcado e reforçado por diferentes vícios. O resultado do consumo das substâncias, porém, revela uma das naturezas mais desafiadoras do trauma: a constatação de que semeamos em nossa própria pessoa comportamentos (bons ou maléficos) relativos ao temperamento de nossos pais, os quais serão refletidos nas relações que construiremos ao longo da vida, ainda que sejamos contra suas atitudes.
Se a máxima de que é necessário perder a si próprio para assim encontrar-se configura uma verdade, Lidia Yuknavitch descobriu nas cinzas do grafite conduzidas sobre o papel o caminho para sua maior força. As palavras que compõem sua literatura, formadas em maioria por contos, são cruas e expurgadas em vermelho-sangue, enquanto as fabulações inscritas refletem sentimentos que permeiam as memórias guardadas.
Filmado em película de 16mm, “A Cronologia da Água” orquestra a presença de cenas texturizadas e um trabalho de som cuidadoso, evocando uma aura sensorial ao filme. A direção precisa e responsável de Kristen Stewart, alinhada à atuação dilacerante de Imogen Poots, gera um produto audiovisual quase possível de tocar; as sensações infligidas à pele de Lidia, sejam causadas pelo contato entre gotículas de água ou a violência de um tapa, também alcançam o espectador.
O ato de realizar uma adaptação cinematográfica, sobretudo quando originado de uma narrativa literária autobiográfica, é desafiador e corre o risco de resultar em algo desastroso; contudo, não é o que ocorre aqui. No comando de seu primeiro longa-metragem, Stewart recusa, de forma simultânea, a sexualização e o pudor implantado ao retrato do corpo feminino para realizar um mergulho sensível nas lembranças de uma escritora em busca de conquistar autoridade sobre seu próprio corpo através da literatura. Afinal, qual é uma das maiores formas de liberdade senão a de poder contar, aos seus moldes, a sua própria história?






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