O Morro dos Ventos Uivantes: a Transformação de Heathcliff e sua Heroína Trágica
- Marta Dutra

- 21 de mar.
- 3 min de leitura

O romance de Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes, foge de uma história de amor convencional, pois trata sobretudo do orgulho. Mas também tem espaço para o amor e o ódio – sentimentos que caminham lado a lado na história do casal Catherine e Heathcliff. Em diversos momentos, a autora descreve cenas que provocam desconforto, angústia e ansiedade no leitor.
Diferente de romances comuns, O Morro dos Ventos Uivantes traz o personagem principal retratado de forma contraditória: ora injustiçado, ora um vilão que busca vingança. Criado como filho adotivo da família Earnshaw, Heathcliff não tem sobrenome nem família. O “cigano de pele escura”, como é descrito no livro, é adotado pelo patriarca da família Earnshaw, mas sempre é tratado de forma diferente pelo irmão.
Desde a chegada à família Earnshaw, Heathcliff se vê querido pelo pai adotivo, rejeitado pelo irmão de consideração, mas muito amigo de sua irmã de criação, Catherine Earnshaw. A intimidade entre as duas crianças cresce a cada dia e, com o tempo, surge uma paixão impossível.
Mas a vida do jovem casal muda completamente com a morte do pai Earnshaw. Heathcliff vê seu mundo ser jogado de cabeça para baixo: o lar que antes o acolhera passa a oprimi-lo, e por conta dos conflitos com o irmão, o menino sem sobrenome sai de casa em busca de seu próprio caminho, desaparecendo por anos seguidos.
A sofrida mocinha Catherine Earnshaw é separada de seu grande amor. A separação do casal é um divisor de águas para a história: anos se passam, Catherine casa-se com seu vizinho, Edgar Linton, enquanto Heathcliff desbrava o mundo afora.
Nesse ponto da história, a situação da família Earnshaw — antes próspera — agora passa a enfrentar desafios financeiros.
A reviravolta na história não acontece à toa. Para a surpresa de muitos, Heathcliff retorna à vila rico e compra a falida casa dos Earnshaw, com a condição de continuar morando com seu maior inimigo, o irmão postiço Hindley Earnshaw. Entre brigas, vinganças e muito orgulho, o enredo se desenrola com cenas que dão um nó na garganta.
Heathcliff coloca em prática seu plano de vingar os anos de sofrimento que passou nas mãos do irmão de consideração. O homem sem sobrenome tenta inutilmente reconquistar o afeto de seu amor de infância, Catherine, mas agora a união Earnshaw com a família Linton traz novos empecilhos ao enredo. As intervenções do esposo dela aprofundam a maldade despertada em Heathcliff.
"Me seria mais fácil esquecer da própria vida do que me esquecer de você." – Heathcliff
Apesar dos anos separados, Catherine e Heathcliff descobrem uma forma de viver essa tardia felicidade, mesmo que de forma breve – antes do trágico fim de Catherine Linton.
"O mundo inteiro é uma terrível coleção de testemunhos de que um dia ela realmente existiu e eu a perdi para sempre!"
O plot twist que veio com o novo filme
Sabemos que filmes e seriados baseados em livros sofrem alterações da história original. No livro de Emilie Brontë são destacados temas como diversidade, desigualdade social, vingança, amor, ódio, orgulho e mais orgulho! O filme dirigido por Emerald Fennell e protagonizado por Margot Robbie e Jacob Elordi apresenta uma versão plastificada da história de Emily Brontë: atenuam as diferenças sociais e raciais, a vingança e o ódio presentes no livro.
Mas o principal, o filme O Morro dos Ventos Uivantes de 2026 transforma Heathcliff – o protagonista de pele escura – em um homem branco. Ao invés de manter o retrato fidedigno (no mínimo próximo) citado no livro, "Um cigano de pele escura no aspecto e um cavalheiro nos modos e no trajar".
A história é adequada para se encaixar no que o público está acostumado a ver: um casal branco vivendo um amor impossível com extremo sexualismo nas cenas. Nas redes, internautas comentaram que, em diversas cenas do filme, parecia que estavam assistindo a Cinquenta Tons de Cinza, e não a uma história difícil que, embora tenha momentos românticos, trata-se de vingança, orgulho, amor e ódio.
Uma verdade difícil de digerir:
A obra universalista foi produzida para agradar o grande público — aquele que não conhece a história de Emily Brontë ou que não se importa com a mudança – entregando as costumeiras produções cinematográficas. O duro romance de 1847 foi encapsulado dentro de uma moderna caixa de “Barbie”. Afinal, a Indústria Cultural se apropriou de uma história desconfortável e a transformou em mais um romance emotivo que se encontra em qualquer catálogo de streaming.





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