A urgência de transformar a dor em arte
- Beatriz Borba

- 16 de mar.
- 4 min de leitura

O romance de 2019, escrito por Maggie O’Farrell, Hamnet, parte de um fato: William Shakespeare teve um filho que morreu aos onze anos de idade e, cerca de três anos depois, escreveu uma de suas obras de maior estatura, tanto pelas frases que circulam no imaginário coletivo — como o famigerado “to be or not to be” — quanto pela dramaturgia em seu auge existencial.
Quem teve a oportunidade de assistir à adaptação cinematográfica do livro Hamnet, dirigida por Chloé Zhao, pôde sentir de perto a emoção e experienciar uma representação de luto transformado em arte onírica. Onírica porque quem se dispôs a se emocionar com o longa, teve um encontro entre a realidade e a ficção pintada de um bocado de lágrimas e a urgência de que podemos e devemos transformar a dor em poesia.
Assim, entendemos que a clássica peça Hamlet, além de uma tragédia sobre um príncipe, é a tentativa de um pai elaborar a morte de seu filho e compreender que o luto é parte previsível da vida. Em Hamlet, um filho perde o pai e passa a ser assombrado por seu fantasma. Essa presença desencadeia a trama e conduz as reflexões do personagem sobre morte, memória e justiça. Em Hamnet, essa figura fantasmagórica também aparece nos minutos finais, que arrisco dizer serem dos mais emocionantes e impactantes — daqueles filmes em que os lenços são obrigatórios e que ainda deixam de brinde uma reflexão sobre tudo o que já se viveu até aqui.

Nas primeiras interpretações da peça Hamlet, Shakespeare interpretou ele próprio o fantasma do pai do príncipe. Isso reforça para mim que o dramaturgo era ali, simplesmente um pai que não teve a chance de se despedir fisicamente de seu filho e precisava materializar a morte como um elemento alcançável — usa de sua arte para dar um adeus eterno, que não pôde dar na vida real.
Agnes, esposa de Shakespeare, interpretada pela magnífica Jessie Buckley, leva a superstição e a natureza como elementos místicos que orientam sua vida, tanto no cuidado materno quanto na forma como se relaciona com o mundo. É uma mulher envolta de saberes ancestrais. A cena em que Hamnet tenta enganar a morte, despistá-la para que não leve sua irmã gêmea Judith, mas sim ele, me fez pensar mais uma vez no misticismo e nas crendices que a morte carrega. Ao mesmo tempo em que a temos como uma certeza, criamos mitos e histórias que a tornem, de certa forma, bela — quase um sopro leve.
A mulher que sustenta emocionalmente o gênio
O filme fala mais sobre Agnes, esposa de Shakespeare, do que sobre ele próprio, mas ao mesmo tempo ela traduz muito daquele ciclo familiar revolto de natureza e misticidade.
Ao escolher contar essa história principalmente pelo olhar dela, a narrativa desloca o foco do grande dramaturgo para aquilo que existe antes da obra: a vida doméstica, a família e a dor cotidiana que não costuma aparecer nos livros de história e nos rascunhos do dramaturgo.
Enquanto Shakespeare parte para Londres e continua sua vida no teatro, é ela quem permanece na casa onde tudo aconteceu. É ela quem convive com o silêncio deixado pela ausência do filho.
Existe algo profundamente feminino nessa permanência. Historicamente, as mulheres ficaram responsáveis por sustentar emocionalmente os lares, enquanto os homens ocupavam o espaço público. Hamnet parece consciente dessa dinâmica e, ao colocar Agnes no centro da narrativa, dá forma a um tipo de sofrimento que quase nunca é narrado nas grandes histórias sobre gênios masculinos.
O filme traduz bem essa densidade visual envolta pela floresta, pela relação de confiança que Agnes constrói ao longo da narrativa. É como se a conversa entre o que é natural, na sua forma mais literal de ser, brincasse com a naturalidade abrupta da morte que evitamos lidar. A natureza que cerca Agnes além de cenário, é como extensão do modo como ela compreende o mundo: através de ciclos, de presságios, de intuições e de uma relação quase espiritual com aquilo que não pode ser explicado.
A escolha de representar esse lado feminino que sustenta, muda também a forma como olhamos para o próprio Shakespeare. O gênio que conhecemos pela dramaturgia aparece como alguém atravessado pela mesma fragilidade que qualquer outro pai. Mas no filme vemos que existe uma diferença fundamental entre os dois — enquanto Shakespeare transforma o luto em arte, Agnes precisa continuar vivendo dentro dele e precisa compreender aquela transformação distante de sua percepção.
A distância entre Shakespeare e Agnes, mostrada em vários momentos do filme, revela duas maneiras distintas de lidar com a perda. De um lado, a permanência silenciosa da mãe, que permanece no espaço onde tudo aconteceu. Do outro, a fuga do pai que busca na criação artística um caminho possível para dar sentido à dor.
Saber que nas primeiras encenações de Hamlet o próprio Shakespeare interpretava o fantasma do pai do príncipe torna essa leitura ainda mais inquietante. Pensar nisso depois de assistir ao filme faz parecer que, naquele palco, Shakespeare não era apenas o autor da peça, mas também um pai tentando dar alguma forma à ausência do filho.
Talvez por isso a história continue provocando tantas leituras e emoções séculos depois. Porque, por trás de uma das maiores tragédias da literatura, existe também algo muito simples e profundamente humano: a tentativa de transformar a dor em alguma coisa que possa ser compartilhada.
Nesse sentido, Hamnet não tenta explicar Hamlet. O filme não busca dar uma resposta definitiva sobre a relação entre a morte do menino e a escrita da peça. O que ele faz é abrir uma possibilidade de leitura: a de que a arte pode ser, às vezes, uma forma de lidar com aquilo que não tem explicação.





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