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Internacionalização no Oscar 2026: Uma análise entre “O Agente Secreto” e “Valor sentimental”

  • Foto do escritor: Nefertiti Beckman
    Nefertiti Beckman
  • 11 de mar.
  • 4 min de leitura

Desde de seu surgimento, em meados de 1929, o Oscar, criado nos Estados Unidos, tem construído um renome com o objetivo de tornar-se referência máxima no que diz respeito às premiações cinematográficas. Ao longo dos anos, o cinema Hollywoodiano foi exportado e inserido com uma violência avassaladora em diversas nações, transformando as obras estadunidenses no centro da cadeia audiovisual do globo. O evento surge, então, como uma força que busca reafirmar o poder das produções norte-americanas sobre a sétima arte de outros países.


"O Agente Secreto" | Divulgação/Victor Jucá
"O Agente Secreto" | Divulgação/Victor Jucá

Até que, em 1957, mudanças significativas aconteceram com a criação da categoria competitiva de “Melhor Filme Estrangeiro”. Após isso, filmes de outros países, antes conhecidos apenas com prêmios honorários, passaram a participar da maior celebração televisionada do cinema. O marco histórico, porém, não impediu o surgimento de obstáculos nas décadas seguintes, visto que  a decisão dos filmes participantes da categoria passou a sofrer o domínio de uma ótica eurocentrista. 


Na edição de 2020, porém, o cenário se transformou novamente a partir de um feito inédito: a conquista do primeiro filme em língua não inglesa, o sul-coreano “Parasita” (2019), ao prêmio de “Melhor Filme”. O acontecimento obteve uma dimensão tão significativa que ocasionou  na alteração do nome da categoria voltada a filmes de outras nações para “Melhor Filme Internacional”. 

Desde então, filmes falados em língua não inglesa têm ganhado uma maior visibilidade na mídia, em festivais e na própria Academia. Na temporada de 2026, as produções internacionais apresentam histórias repletas de singularidades; contudo, o destaque vai para duas obras que estão movimentando fortemente a corrida: “O Agente Secreto”, representante do Brasil, e “Valor Sentimental”, selecionado para representar a Noruega. 


    "Valor Sentimental" | Foto: Divulgação
"Valor Sentimental" | Foto: Divulgação

O thriller político “O Agente Secreto”, é ambientado na cidade de Recife no ano de 1977 - em pleno período ditatorial no Brasil - e acompanha Marcelo, um professor universitário com um passado misterioso que retorna à Recife em busca de reconstruir sua vida, mas logo percebe que a cidade está distante de garantir a paz que procura. Dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, o longa se consolidou, até o momento, como o mais premiado no circuito de premiações, acumulando cerca de 60 prêmios, dentre os quais é possível destacar quatro estatuetas no Festival de Cannes e três conquistas no Globo de Ouro.


A obra tem colocado o cinema brasileiro no palco - cuja plateia é composta pelos olhos do mundo - em seu segundo ano consecutivo. O momento repete, por um lado, o impacto de “Ainda Estou Aqui” (2024), mas, por outro, o simbolismo do novo trabalho de Kleber Mendonça Filho emerge de forma contundente. Muito disso deve-se ao fato de que o projeto, tanto no que tange ao técnico quanto às questões narrativas, escapa do eixo Sul-Sudeste e projeta, a partir disso, a pluralidade cultural de um estado inserido no Nordeste, com seus marcadores, expressões e folclore mundo afora, feito realizado anteriormente apenas pelo cineasta baiano Glauber Rocha, com “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. 


Por sua vez, “Valor Sentimental” aposta em uma trama contida ao narrar o reencontro de duas irmãs, Nora e Agnes - após a morte da mãe - com seu pai Gustav, um cineasta renomado, porém distante. Dirigido por Joachim Trier, o longa foi filmado em película 35mm e tem percorrido um caminho triunfal na temporada, marcado pelos longevos 19 minutos de aplausos no Festival de Cannes, o número expressivo de pouco mais de 40 estatuetas recebidas e a vitória no British Academy Film Awards (BAFTA) em “Melhor Filme de Língua Não Inglesa” - categoria na qual concorria junto a “O Agente Secreto”. Isso levantou debates acerca de qual das produções seria escolhida para a posição de “Melhor Filme Internacional” na consagrada cerimônia do Oscar. 


As produções, embora manifestem, ao menos na superfície, um caráter destoante em suas abordagens e contextos históricos, abordam uma temática em comum: a memória. O filme de KMF, por intermédio da utilização de cores quentes e a evocação de um Recife carnavalesco em meados de 1970, escolhe retratar uma memória infectada de toda uma nação, atravessada por esquecimentos ocasionados pelo sistema repressivo do regime civil-ditatorial implantado no Brasil. Ao abordar implicações políticas e sociais que atingiram os indivíduos sobreviventes, “O Agente Secreto” evidencia a herança de um país amaldiçoado, proibido de conhecer sua própria história devido à ausência de registros dos que se foram, traçando uma rachadura irrecuperável na memória coletiva brasileira.


Em contrapartida, o norueguês “Valor Sentimental” limita-se a um elenco menor para abordar  o trauma geracional em uma narrativa permeada por relações familiares fragmentadas. Nesse sentido, o filme trabalha de maneira exemplar diversos recursos de linguagem, como a utilização do silêncio e o dinamismo implantado nos olhares de cada personagem para refletir os conflitos afetivos que envolvem a trama. Ao fazer isso, Trier desenvolve um retrato intimista dos vazios familiares, cujo foco é atribuído à construção da memória individual que cada membro do núcleo afetivo carrega consigo. 


A rivalidade entre as duas obras, entretanto, tem provocado maior intensidade à medida que a temporada de 2026 chega ao fim, o que não ocorre apenas no âmbito das premiações, mas também no processo de divulgação. Ainda que ambas as produções sejam distribuídas pela mesma empresa, intitulada NEON, o desenvolvimento das campanhas de divulgação transpõe um esforço expressivo - observado nas últimas semanas - direcionado para “O Agente Secreto”, colocando em evidência um movimento crescente de internacionalização do cinema brasileiro. 


Para além disso, o reconhecimento voltado à cadeia de profissionais do audiovisual do Brasil vem sendo obtido tanto na associação a categorias estabelecidas como “principais", a exemplo de atuação ou direção, bem como em seções técnicas, nas quais, entre os destaques, está Adolpho Veloso, diretor de fotografia do longa “Sonhos de Trem”.


Ao traçar um breve panorama pelo circuito de premiações cinematográficas de 2026, entre os caminhos percorridos por “O Agente Secreto” e “Valor Sentimental”, duas produções com temáticas distintas e que, no entanto, encontram um ponto de convergência, é possível colocar à luz aspectos fundamentais relacionados ao aumento da valorização de produções audiovisuais que escapam da hegemonia hollywoodiana. Embora tratadas pela crítica e pelo público como rivais, os méritos conquistados pelas obras demonstram, sobretudo, o sucesso na promoção de diferentes vivências e culturas, trazendo novas perspectivas acerca do futuro da indústria fílmica mundial.


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