O "tiro no pé" de Timothée Chalamet
- Enzo Santos

- 12 de mar.
- 5 min de leitura
O que a fala do ator sobre ópera e balé reflete da percepção da arte

Há poucos dias a internet explodiu em revolta à declaração de Timothée Chalamet. “Eu não quero trabalhar com balé ou numa ópera, ou em coisas assim, que pedem para serem mantidas vivas mesmo que ninguém se importe mais com essas coisas” — assim disse o ator que concorre ao Oscar em uma entrevista a Matthew McConaughey.
Diversas academias de artes clássicas — de ópera e balé principalmente — de todo o mundo se pronunciaram em suas redes sociais mostrando o quão relevante essas artes ditas “fora de moda” continuam sendo, seguindo um lema universal: “Nós nos importamos!”. O envolvimento de tantas pessoas na produção e a alta demanda por parte do público demonstram que a afirmação do ator de Marty Supreme nada mais foi que uma falácia infeliz apoiada num achismo.
A Seattle Opera ofertou ingressos com desconto no último final de semana (7 e 8 de março) com um anúncio irônico que brincou com o menosprezo em tom descontraído de Timothée. O tradicional Royal Ballet and Opera aproveitou para terminar sua declaração em uma postagem com um convite em aberto: “Se você quiser reconsiderar, Timothée Chalamet, nossas portas estão abertas”.

Katherine Stancoff, estudante de ópera, comenta sobre sua relação com a arte: “Quando assisti ao filme Querido Menino (2018) e vi a sequência final, com o personagem de Timothée Chalamet sofrendo de uma convulsão sozinho no chão de um banheiro, enquanto toca o Movimento II da Sinfonia Nº 3 Op. 36… a música é nauseantemente desoladora. O motivo dessa cena ter me tocado tanto é o quanto me enxerguei no personagem de Timothée Chalamet naquele momento. Apesar do ator não ter sido o produtor do filme ou sequer ter escolhido aquela música clássica, sua incrível interpretação sobre o vício do personagem me envolveu indiretamente no mundo da ópera”. Quanto à polêmica, Katherine disse estar “simplesmente irritada com o fato de um artista tão famoso ter rebaixado formas de arte tão elevadas”.
Luiza Helena Borges dança balé há 10 anos e também se indignou com o comentário de Chalamet: “ver alguém de tanta relevância menosprezando não só a arte como as pessoas que se esforçam tanto para ter, foi uma chateação”, aponta a bailarina. “Acredito que o balé possa ser de certa forma ‘tradicional’ ou ‘antigo’, mas ver como ele se adapta e inclui pessoas, como dá espaço para crescer e para se apaixonar, é algo que não deve ser desmerecido, ainda mais por um artista de tal posição.”
Não é a primeira vez que o querido ator de Hollywood se envolve em controvérsias. Uma das mais recentes foi com seu comportamento em entrevistas em que agia de forma extremamente obstinada quanto à sua atuação no filme Marty Supreme. “Essa provavelmente é a minha melhor atuação, e tem 7 ou 8 anos que sinto que venho entregando performances de altíssimo nível, com realmente muito comprometimento”, afirmou Timothée em entrevista para a jornalista Margaret Gardiner. Tudo isso, no entanto, foi interpretado popularmente como uma forma de arrogância e de irritante semelhança com seu personagem do filme.

A entrevista com Matthew McConaughey foi ao ar no dia 24 de fevereiro, apesar da polêmica ter sido mais comentada pelo final da primeira semana de março. A questão das datas pode ter interferido na decisão de alguns votantes da Academia, já que a frase explodiu em meio ao período de votação final do Oscar, ocorrido de 26 de fevereiro a 5 de março. A premiação acontecerá dia 15 de março.
A mais recente polêmica da ópera e do balé levanta uma questão mais profunda: em perspectivas mais “atuais” reducionistas e mais ligadas ao entretenimento rápido e fácil típico da internet e das redes sociais, qualquer forma mais profunda de arte seria “uma chatice” e algo já esquecido no passado. Entretanto, dados como da pesquisa da Fundação Itaú em parceria com o DataFolha — em que se constatou que 96% dos brasileiros realizaram alguma atividade cultural em 2023 —, levam a um retrato que demonstra que, apesar das condições viciantes de algoritmo na era da hiperinformação, a arte consegue resistir e pulsar na humanidade.
“É histórico”, comenta a pianista concertista e historiadora da música Simone Leitão, “é uma experiência única, faz parte do crescimento humano. Todas as vezes em que se quer enriquecer a educação, você coloca a criança para tocar um instrumento, fazer um teatro.”
Uma das questões levantadas por Timothée Chalamet que também abre espaço para questionamentos e debates foi a aparente proporcionalidade inversa do entretenimento e da cultura, com um debate entre o que é popular/superficial e nichado/profundo sob o cenário da indústria cultural de hoje em dia.
Artes mais clássicas, como a própria ópera e o balé, são associadas a uma elite intelectual e monetária por ter sido criado justamente nos palácios da aristocracia, no século 17. Foi mantida no imaginário a ideia de que quem consome e “movimenta” essas artes mais rebuscadas é a elite, e que se tratariam de âmbitos culturais inacessíveis intelectualmente, e isso estabelece uma repulsa em quem se considera “ignorante demais para isso”. Luiza Helena comenta que quando ela conta para alguém que é bailarina, fica “perceptível como as pessoas conhecem ‘raso’ do assunto, mas no geral admiram bastante”. Simone Leitão esclarece que uma das vertentes da arte clássica, a música clássica “sempre trouxe para dentro de si outras expressões. E ela é atemporal justamente por isso. Ela criou, ao longo dos séculos, uma linguagem universal. Ela te leva a algum lugar da transcendência, e ela alcança todo mundo.”
Parte da problemática em afirmar que “ninguém se importa mais com essas coisas” é o quanto isso atinge a arte como um todo, sem se limitar ao classicismo. Com a Inteligência Artificial se aprimorando e sendo usada irresponsavelmente, o cinema é um dos primeiros afetados pela visão utilitarista que impõe “prazos de validade” em formas de expressão humana que conecta gerações e transcende tempo e espaço. “Se não fosse a música clássica, a gente não teria música para o cinema. E isso vem da ópera. O cinema não existiria se não fosse o drama que a ópera elevou a pontos transcendentais”, destaca Simone. “Em um contexto atual, da ascensão da IA, o que vai sobrar da gente são conexões, a nossa humanidade falha e dual.”






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