top of page

Bad Bunny no Super Bowl: muito mais do que entretenimento, uma prova de que música é resistência

Foto do escritor: Ana Beatriz Carvalho
Ana Beatriz Carvalho
22 de fev.
4 min de leitura
    Bad Bunny já coleciona 6 Grammys em sua carreira; em 2026 o cantor levou 3 estatuetas, incluindo a principal, de (Melhor Álbum do Ano). Bunny ainda foi o artista mais tocado no ano de 2025 no Spotify                             (Foto: Ishika Samant/Getty Images)
Bad Bunny já coleciona 6 Grammys em sua carreira; em 2026 o cantor levou 3 estatuetas, incluindo a principal, de (Melhor Álbum do Ano). Bunny ainda foi o artista mais tocado no ano de 2025 no Spotify  (Foto: Ishika Samant/Getty Images)

“A única coisa mais poderosa do que ódio, é o amor”. Foi esta mensagem que Benito Antonio Martinez Ocasio, mundialmente conhecido como Bad Bunny, passou aos 128,2 milhões de telespectadores ligados no Super Bowl, tradicional evento esportivo americano que ocorreu no domingo do dia 8 de fevereiro.


A escolha do cantor porto-riquenho para se apresentar no show do intervalo de maior audiência da história da televisão não poderia ter acontecido em hora mais pontual. Bad Bunny é conhecido, entre tantas outras coisas, por bater de frente com o governo americano, principalmente no crítico momento atual de medidas opressivas contra imigrantes.


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assumiu uma postura rígida em seu mandato atual. Trump não tem pudor ao dirigir palavras de ódio e desprezo àqueles residentes e cidadãos dos EUA que possuem outra nacionalidade. A polícia migratória de seu governo, conhecida como ICE, tem chocado o mundo com sua brutal repressão e perseguição aos imigrantes e moradores irregulares no país.


Frente a tal desumana ação, às pessoas sendo tratadas como mercadorias em exportação e como objetos sem sentimentos, que podem ser deslocados e expulsos sem o mínimo respeito ou dignidade, Benito não se calou. Nunca em sua carreira o cantor exprimiu uma opinião passiva, mas, pelo contrário, sempre lutou para que a voz da cultura latina tivesse espaço.


Porto Rico é território americano, uma colônia com autonomia interna mas sem soberania plena. Mesmo com cidadania e livre circulação, os porto-riquenhos sofrem preconceito na “América”, que dizia com tanto orgulho ser a terra da liberdade. É diante destas discriminações que a população luta para que sua cultura seja valorizada e respeitada.


Bad Bunny é um porta-voz do seu povo. Cantando suas músicas em espanhol, dançando reggaeton e trap latino, ele usa de suas canções e espaço na indústria musical como meio de reivindicação de direitos.


Quando um cantor porto-riquenho alcança o epicentro do maior evento televisivo norte-americano e se apresenta no maior palco da cultura contemporânea cantando inteiramente em espanhol e com elementos que retratam a vida latina, uma mensagem clara é transmitida: somos todos América. Não existem monstros, ladrões ou vilões. Existe uma grandíssima população que vibra em música e resistência.


Benito, entretanto, não aponta o dedo para ninguém. Não despreza os Estados Unidos e nem afirma superioridade. Apenas grita por igualdade. Quase ao final de sua apresentação, Bunny repete uma célebre frase estadunidense: “que Deus abençoe a América”. E em seguida cita os 35 países do continente americano.


O poder da mensagem é a simples mas ignorada constatação de que “América” não se resume aos Estados Unidos. América é um continente que vai do norte ao sul global.


É emocionante ver, finalmente, um outro modo de vida brilhar na mídia. A identificação fez latinos pelo mundo todo se arrepiarem pois, pela primeira vez em muito tempo, se viram representados em um meio no qual geralmente são marginalizados.


Nossa cultura foi retratada. Nosso povo foi lindamente pintado. Foi fiel à realidade.


A plantação de cana-de-açúcar, a comunidade porto-riquenha que vive em Nova York, a representação dos problemas de eletricidade enfrentados no país, a bandeira de Porto Rico com a cor original. As referências foram muitas, em um show rico em história, factualidade e tão cheio de desejo de ser ouvido e celebrado.


O que foi feito é de uma força e coragem indescritível. Foi histórico e insubstituível.


E, claro, enfureceu o presidente americano. Ele, que já estava fazendo desfeita de Bad Bunny previamente, afirmando que não entendia porque Benito havia sido escolhido já que nunca tinha escutado falar dele, emitiu uma nota em seu perfil oficial no Twitter/X após a apresentação, deixando nítido seu desgosto. (*)


Trump disse que achou uma “afronta à grandeza da América”, afirmando que a apresentação foi uma das “piores da história”, “feita em uma língua que ninguém entende”, com “danças que são ofensivas para as crianças americanas”.


Chega a ser cômico o nível do absurdo de tal comentário. A  cegueira que domina parte dos conservadores preconceituosos, a impossibilidade de assumir que, por vez, outra cultura ganhe destaque; que os holofotes recaíam igualmente sobre todos. A sede por soberania envenena a alma.


Independente do posicionamento do presidente, o mundo se viu no belíssimo show de Benito. E a genuinidade da alegria ao se enxergar em um lugar de tanto destaque e a pureza de fazer com que um povo tão reprimido finalmente tenha espaço para se expressar; isso é mais valioso do que qualquer coisa.


É um ato maior do que apenas mais um passo na carreira do artista. É posicionamento político, luta contra repressão, incentivo para não desistirmos, jamais. Dos nossos sonhos, do nosso lugar, da nossa voz.


Bad Bunny usa do seu instrumento poderoso, a música, para unir. Unir o mundo em amor. Pedir o fim de tanta separação, tanta dor, tanto medo.


Todo mundo merece respeito. Todo mundo merece liberdade inegociável. Todo mundo merece ser visto, entendido e escutado.


Benito fez o mundo dançar em união. Com seu ritmo envolvente, conseguiu um utópico sonho: que esqueçamos das nossas diferenças e nos unamos no que temos de semelhante, nossa humanidade. Ele inspirou, emocionou e motivou.


Não vamos nos deixar apagar. Teremos nosso espaço. Todos devem ter.


O mundo não é território particular de ninguém. Se fizermos com que o amor supere o ódio, chegaremos longe.


Que Deus abençoe a América.


(Foto: Kevin Sabitus/Getty Images)
(Foto: Kevin Sabitus/Getty Images)


1 comentário


Convidado:
23 de fev.

👏👏👏👏

Curtir

2026 | TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

bottom of page