Felizes para sempre? Desilusão, desgaste, decepção e desapego, o que tem moldado as relações amorosas da Geração Z.
- Marta Dutra

- 16 de jun.
- 5 min de leitura

Você já deve ter passado pela experiência de conhecer alguém, sentir conexão, começar a ficar, achar que essa pessoa é o amor da sua vida e se apaixonar perdidamente. Vocês quase chegaram a namorar, mas repentinamente, tudo acabou. Esse “quase algo” – reconhecido pela geração Z – pode ter devastado suas esperanças de um dia se casar.
E é compreensível, afinal, hoje vivemos o Amor Líquido do sociólogo polonês, Zygmunt Bauman. Nessa era, as relações afetivas são fluidas, flexíveis e altamente individualistas, sendo tratadas muitas vezes como produtos de consumo: mantidas enquanto trazem satisfação pessoal e descartadas quando exigem algum tipo de esforço. Ou seja, enquanto traz felicidade está tudo bem, mas assim que deixa de servir, alguém larga o barco, tornando as relações cada vez mais superficiais e inconstantes. E como esperar profundidade amorosa se hoje há tantas opções?
Na sociedade moderna, as pessoas se transformaram em um produto (descartável), que fatalmente pode ser trocado ou escolhido no infinito catálogo das redes sociais ou apps de relacionamento. Você desliza para o lado e encontra alguém que faz seu tipo, dá match, mas ao deslizar por mais 10x, descobre que tem outras pessoas – quase perfeitas. Então toda vez que algo vai mal no relacionamento, você tem uma “válvula de escape”, podendo trocar o “produto” e reiniciar tudo novamente.
É o que afirmou o psicanalista Lucas Scudeler em entrevista ao portal Terra, "A Geração Z cresceu com outra lógica. Num rolar de tela em um feed, há sempre alguém mais bonito, mais interessante, mais compatível a um toque de distância. O resultado psicológico tem nome: paradoxo da escolha". E o casamento, naturalmente, é fruto desse paradoxo da escolha, afinal, quanto mais opções existem, mais difícil de encontrar o match perfeito.
No Amor Líquido, valores tradicionais como estabilidade e fidelidade são substituídos pela busca constante por novidade e satisfação imediata.
Mas se por um lado, impera a desesperança e o desinteresse de um dia se casar, por outro, existem os entusiastas da geração Z que sonham com esse momento, ou melhor, são obcecados pela ideia, já que a nossa geração é a que menos tem casado nos últimos anos. É o que aponta uma pesquisa feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em que conclui uma queda de quase 3% no número de casamento civil entre pessoas de até 29 anos.
A ânsia de ter e o tédio de possuir
Historicamente, filmes e séries de comédia romântica lideram o catálogo dos streamings, dado que por trás de uma tela tudo é perfeito. Ironicamente, a Indústria Cultural se aproveita dessa idealização para problematizar histórias e reforçar amores inatingíveis.
O casamento é a obsessão de milhares de jovens que sonham com o dia do “sim”, mas diante dessa distante realidade, muitos se limitam apenas ao consumo de narrativas que exploram o matrimonio.
No entanto, o seriado global Tapas e Beijos, retrata essa obsessão pelo matrimonio, e, diferente de séries romantizadas, a trama apresenta as dificuldades da vida a dois, em contraste com o sonho de ir ao altar. As vendedoras de noivas, Fátima e Sueli, diariamente lidam com casamentos, porém, como o gramado do vizinho é sempre mais verde, a vida amorosa das duas é recheada de instabilidades, inseguranças e decepções, distanciando as protagonistas do altar, fazendo-as sonhar com o casório.
Entretanto, quando o casamento acontece, a rotina toma conta e os personagens precisam lidar com as dificuldades da união. Assim, a instabilidade se repete, entre separações e reconciliações, as vendedoras do Djalma Noivas passam grande parte da série imaginando o dia da relação perfeita. Seria essa idealização do casamento perfeito que nos congela diante do “sim”?
Nem só de amor vive o homem
Conhecer alguém demanda tempo, e, no mundo moderno, tempo é dinheiro, tempo é produtividade. A idealização do casamento frente a queda dos matrimônios, não é em vão, apesar da solidão que a geração atual tem sentido – comprovada pela pesquisa entre a empresa McVitie’s, a instituição de caridade Mind e o documentarista A Mug of Life, que destaca que cerca de 37% dos jovens se sentem sozinhos, o custo de vida tem aumentado drasticamente ao redor do mundo.
Além disso, altas jornadas de trabalho, estágio e estudo também contribuem com a redução dos relacionamentos sérios. Por isso, muitos jovens têm se dedicado a carreira, estudos e sonhos pessoais, preterindo a decisão de se casar.
Batalhas do sexo: como ideais políticos tem afastado homens e mulheres
Além disso, hoje vivemos em uma sociedade polarizada, assim, estudos indicam que mulheres estão mais modernas, enquanto eles, os homens estão mais conservadores. Isso é o que indica o levantamento feito pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, em que 31% dos homens da Geração Z acreditam que a mulher deve sempre obedecer ao marido, enquanto 33% afirmam que o homem deve ter a palavra final em decisões importantes. Dessa forma, esse embate dos sexos, pode impactar na redefinição das relações, pois enquanto um lado busca liberdade o outro busca controle.
Ademais, o crescimento dos redpills – a machosfera – tem sido um movimento contemporâneo reconhecido pela guerra dos sexos – homens contra mulheres. Mas diferente do feminismo por exemplo, os incels (redpills) defendem a misoginia, ou seja, o ódio contra as mulheres. Isso tem afastado cada vez mais mulheres de relacionamentos românticos com homens, afinal, que mulher quer ser parte das estatísticas do feminicídio que só tem crescido no Brasil?
Por isso, nas relações heteroafetivas, as mulheres temem entrar em relações fadadas ao controle, enquanto os homens receiam assumir responsabilidades.
Dessa forma, a decisão de entrar em um relacionamento amoroso enfrenta divergências, desde a decisão política – se é de direita ou esquerda – a beleza física, religião, condição social e até o status que aquele relacionamento pode proporcionar – pois devemos lembrar que vivemos na Modernidade Líquida.
A comodidade de não sentir nada
O amor é uma fraqueza? É possível racionalizar um sentimento? Blindar os sentimentos pode ser um mecanismo importante para a geração de relações da Modernidade Líquida, uma vez que não criar vínculos fortes nos protege de responsabilidades afetivas. No fim das contas, a decisão de não sentir nada, também protege o coração de uma possível decepção amorosa, mas e quanto ao que o outro sente?
Grandes relacionamentos não se sustentam com laços frágeis e jogos emocionais. O diálogo, amor e responsabilidade são a chave para a construção de um relacionamento longo e feliz com respeito pelos sentimentos do parceiro. Afinal, como colocou o Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry, “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Isso te acalenta ou te espanta?
Entre amores rasos e profundos, existe algo em comum: a individualidade de cada um. Uma vez que mesmo com tantas possibilidades, somos humanos, não objetos descartáveis.
E como destaca o Principezinho do francês Saint-Exupéry, a existência de inúmeras outras rosas não anula o amor e afeto que ele tem pela rosa dele, afinal, ele entende que nenhuma rosa é como ela, seu valor é insubstituível. Assim somos nós, mesmo vivendo um mundo de possibilidades em que pessoas parecem ser descartáveis, ninguém é igual, como uma impressão digital, cada qual tem a sua.
Todavia, poucos tem a coragem de se entregar para o amor e as responsabilidades que um casamento exige. No Amor Líquido, a covardia tem seu valor, o valor de não criar vínculos e de se eximir dos sentimentos que desperta no coração alheio.





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