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MASP através do tempo: por que o museu ainda é um símbolo cultural?

  • Foto do escritor: Yuri Coelho
    Yuri Coelho
  • 20 de out. de 2025
  • 4 min de leitura
Masp
FOTO: Pedro Teles Marin

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) é o templo sagrado da Avenida Paulista. É a joia da coroa do cartão postal mais famigerado da cidade de São Paulo. O edifício Lina Bo Bardi já nas fotos, passa uma impressão de enormidade, mas é presencialmente que se percebe sua dimensão simbólica e de espaço, quando toda a sua peculiaridade e tamanho atinge o espectador.


O edifício completa 57 anos em 2025, agora com um novo “grande irmão” ao lado, o edifício Pietro Maria Bardi, inaugurado em março deste ano. Segundo os dados fornecidos pela gestão do museu, a nova expansão adicionou uma área de mais de 7.000 m², com um aumento de 66% dos espaços expositivos entre os 14 novos andares. Trata-se da maior expansão do museu desde a transferência do acervo do centro da cidade para a Paulista.


Todos esses números simplesmente para afirmar que o MASP, depois de tanto tempo, ainda é um dos gigantes centros culturais do planeta, e que está longe de ser esquecido: a exposição “A Ecologia de Monet”, que esteve à mostra em agosto deste ano, se tornou recentemente a mais visitada na história do museu. A pergunta que fica é: como se manter com tanta relevância no cenário cultural não só nacional, como também internacional? Como, depois de tanto tempo, o MASP ainda faz um trabalho sublime em ser uma ponte entre arte e população?


Algumas dessas perguntas passaram pela minha cabeça assim que eu botei os pés pela primeira vez entre o vão de 74 metros logo abaixo da estrutura suspensa que é o Lina Bo Bardi. Depois do leve susto com a fila extensa (que apesar do tamanho era ágil e bem organizada) as respostas vieram com uma clareza gratificante à medida que eu passava pelos cavaletes de cristal do segundo andar, retomados pela nova gestão do MASP, vinte anos após sua retirada.



A proximidade com o espectador


A primeira impressão ao caminhar pelo segundo andar do museu é de que a exposição “Acervo em transformação” é uma selva de cavaletes de vidro, e consequentemente, uma “overdose” de arte quase que instantânea. A sensação é de andar em um labirinto cujas paredes são obras, mas não se sentir sufocado em momento algum. É como se o MASP usasse o próprio acervo para trilhar o caminho que oferece ao espectador.

Os cavaletes flutuantes permitem uma experiência mais leve e fluída, fazendo o espectador se acostumar a enxergar a obra como um objeto ativo do ambiente, em vez de apenas um bloco colado numa parede. O resultado é uma amostra imersiva que não tem medo de expor o máximo de arte possível no espaço apertado que é o segundo andar do museu. 



Masp
FOTO: Pedro Teles Marin

Liberdade narrativa


É verdade que as obras são expostas no espaço de acordo com o seu tempo: quanto mais antiga a arte, mais ao fundo do andar ela está, nas profundezas da floresta dos cavaletes de cristal. Mas o caráter livre e fluído da amostra desconstrói qualquer tipo de narrativa ou hierarquia que poderia ter sido pré -estabelecida pela curadoria do museu.


A mensagem é clara: desprenda-se de movimentos artísticos, de autores consagrados, de obras atemporais, de períodos históricos, de técnicas revolucionárias. A exposição oferece uma oportunidade de criar o próprio roteiro à medida que você se aventurar pelo labirinto das telas flutuantes. Essa era a proposta original de Lina Bo Bardi ao desenhar os cavaletes em 1968: que o primeiro contato do espectador fosse cru, desprovido de contextualizações e de informações acerca da obra.


Este é claramente outro trunfo da exposição: a recusa do MASP de encaixar o próprio acervo em classificações premeditadas expõe a tentativa certeira da instituição de destacar a multiplicidade da arte exposta. Indo além, é um discurso que busca se alinhar com uma ideia de uma arte democrática, acessível a todos os públicos e que se compromete com a inclusão, com a diversidade e com a pluralidade, valores inestimáveis para o museu.



Masp
FOTO: Pedro Teles Marin


Arte do passado, do presente e do futuro


Apesar de se desprender de narrativas e hierarquias, é nítido que o MASP sabe que inclusão, diversidade e pluralidade não são apenas palavras bonitinhas. Pode parecer contraditório, mas mesmo que não se comprometa com cânones artísticos, a curadoria do museu entende a importância que é pensar sobre a modernidade, sobretudo com obras que refletem as questões sociais, perpetuando um diálogo constante entre passado, presente e futuro.


E mesmo que o carro-chefe do museu ainda sejam os grandes clássicos modernistas (presentes em Cândido Portinari, Tarsila do Amaral, Anitta Malfatti), o MASP parece entender perfeitamente que o segredo para a longevidade e atemporalidade de um museu de arte é incitar uma discussão que esteja direcionada constante e conscientemente para as questões sociais, sem temer o atrito que emana de uma arte verdadeiramente engajada.


O que consegui entender dos cavaletes foi que o MASP ainda tem o tamanho que tem porque simplesmente não tem medo da própria grandeza. Seja na arte suja “ready-made” e informal de Ana Raylander; nas discussões sobre ancestralidade propostas por Paulo Nazareth; nos clássicos impressionistas de Monet; na arte panfletária de “Guerrilla Girls” ou na protagonização da matriz africana em Abdias do Nascimento, o MASP assume o compromisso com o todo, e por isso que é um dos maiores símbolos culturais do país.


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