Do grito de Dolores ao boné Brasil dos brasileiros: O que o México tem a nos ensinar sobre defesa da soberania?
- João Assis

- 20 de out. de 2025
- 3 min de leitura

Tradicionalmente no dia 16 de setembro, a liderança do estado mexicano, em um grande evento de comemoração a independência do país, reproduz o “Grito de Dolores” discurso agitativo que o Padre católico Miguel Hidalgo proclamou ao dar início a guerra de independência mexicana.
Em 2025 a data se tornou mais especial, primeiramente pelo México ter ouvido pela primeira vez uma mulher conclamando “o grito”, mas também por seu caráter significativo de defesa da soberania mexicana frente às ofensivas estadunidenses.
Em um discurso que relaciona o passado e o presente mexicano, a Presidente Claudia Sheinbaum trouxe à tona as heroínas anônimas da independência, as mulheres indígenas e os imigrantes mexicanos nos Estados Unidos. A presidente de maior popularidade das américas também aproveitou o evento para exaltar a liberdade e a soberania mexicana.
Assim como o Brasil, o México também enfrenta ameaças tarifárias estadunidenses desde o início do ano, as medidas que chegaram a ser adiadas por Donald Trump após acordos com Sheinbaum são parecidas com as brasileiras, 30% de tarifas nas exportações do México para os Estados Unidos.
A pauta de defesa da soberania nacional fortaleceu o governo, a presidente que já era bem avaliada, viu sua aprovação chegar a 85% entre os mexicanos. No Brasil, a tendência é a mesma, em setembro 64% dos brasileiros achavam correta a postura do governo em relação ao tarifaço estadunidense.
Mas quando os bonés, cartazes e discursos em defesa da Soberania Nacional viram ações concretas?
No México, 1 mês antes do “Grito”, o governo apresentou um plano de fortalecimento da “Pemex”, a estatal petrolífera do país. Que inclui fundo de investimentos, implementação de US$12BI de dólares por meio de titulações e redução da carga tributária. O plano é só mais uma fase da luta mexicana por “soberania energética”, que tem como medida principal a reestatização do petróleo e da energia elétrica. Em 2024, a Pemex e a CFE, empresas responsáveis pelo petróleo e pela energia elétrica, tiveram retomados o status de empresa pública e nesse momento avançam para aumentar suas participações nas produções nacionais. Assim como em nosso país, os setores de energia elétrica e petróleo também sofreram privatizações na década passada, que endividaram e diminuíram pela metade as produções de empresas fundamentais na economia. Mas o Brasil até então só acompanhou o México no discurso.
O Plano “Brasil Soberano”, anunciado pelo governo Lula em agosto, é somente um paliativo aos prejuízos que o tarifaço gerará aos grandes empresários, trata-se de um pacote de R$30 bilhões destinado a crédito facilitado, compras públicas, adiamento de tributos e seguros para exportadores. As medidas que se justificam pela busca por proteger empregos, consistem em uma transferência de recursos públicos que garantirá a sobrevivência dos lucros privados. Entretanto, passa longe de representar a tão falada “defesa da soberania nacional”.
Mesmo com as recorrentes faltas de energia no país, inclusive na capital econômica São Paulo, o governo não esboça ação concreta. A reestatização da Eletrobras ou a mudança do modelo de distribuição elétrica no Brasil, atualmente privatizado, não são pautas. A empresa italiana ENEL segue responsável pela distribuição energética da maior cidade do país, que vem sofrendo com aumento de 28% nos casos de falta de luz desde 2023, somados a um aumento de 10% na conta de luz ao longo de 2025.
As reativações e compras de campos de petróleo, terminais, gasodutos, termelétricas, usinas eólicas e outros ativos, vendidos pela Petrobrás no governo Bolsonaro ocorrem de maneira esporádica, não por planos infraestruturais do governo brasileiro. Enquanto o preço da gasolina segue em alta, sem perspectiva de queda.
Um governo que somente investe na segurança dos grandes lucros privados, ao passo que cada vez mais terceiriza para empresas do exterior a responsabilidade de produção e distribuição energética e a exploração e tratamento de petróleo, não pode dizer que o Brasil é dos brasileiros.
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