Cessar-fogo em Gaza, o que vem depois do genocídio?
- Marta Dutra

- 15 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
O que a suspensão dos ataques revela — e oculta — sobre o futuro do povo palestino.

O cessar-fogo é um termo que representa um acordo firmado pelos dois lados da guerra para a suspensão temporária dos ataques, ou seja, uma trégua. Há cerca de um mês, o acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza foi assinado. Apesar da tardia negociação, o acordo tem sido constantemente violado pelos dois lados do conflito. Contudo, o cessar-fogo levanta esperança para o povo palestino, que vive, sumariamente, no meio da guerra. Embora prisioneiros tenham sido libertados e trocas tenham acontecido, a Palestina está em destroços, e o povo que ficou na Faixa de Gaza tenta buscar forças para recomeçar.
Segundo o comitê da Organização das Nações Unidas, os 67 mil palestinos mortos no conflito na Faixa de Gaza caracterizam ação de extermínio, ou seja, genocídio do povo palestino. Todavia, o governo dos Estados Unidos e de Israel refuta a comissão de inquérito da ONU e alega atuar em defesa contra o grupo terrorista Hamas. Para o especialista em Relações Internacionais, Leonardo Paz Neves, o conjunto de atores internacionais diverge na opinião sobre o conflito, de acordo com o internacionalista, a visão é relativa à posição ideológica e política. Todavia, Leonardo analisa o conflito como uma limpeza étnica por parte de Israel, uma vez que o país vive uma intensa disputa pela Faixa de Gaza com o grupo terrorista Hamas.
Ademais, o frágil acordo de paz firmado no dia 9 de outubro de 2025 traz à tona os ataques de militares contra toda uma cidade. As marcas da guerra são perceptíveis nas escolas, hospitais e nas casas dos civis palestinos que sobreviveram, mas ficaram desabrigados durante os últimos dois anos de guerra. Segundo o internacionalista Neves, para que os palestinos possam recomeçar, é necessário que seja feita uma análise da destruição, de forma qualitativa, do que precisa ser recuperado. Além disso, o especialista reitera que a manutenção da paz é um ato difícil: “infelizmente, não é o capítulo final dessa crise”, conclui Neves.
Em entrevista exclusiva à Euronews, Francesca Albanese, relatora especial da ONU, informou que o cessar-fogo é uma ilusão. Apesar da redução na intensidade do conflito, a relatora destacou que, desde a promulgação do cessar-fogo há cerca de um mês, mais de 230 palestinos foram mortos por Israel. Já o relatório publicado pela Agência Brasil, há quatro dias, informou o assassinato de 271 palestinos.
Embora a entrada de ajuda humanitária tenha sido retomada no território, especialistas consideram que a quantidade seja insuficiente para apoiar a população com comida e bens utilitários. Hoje, cerca de 170 caminhões entram diariamente na Faixa de Gaza com suprimentos, o baixo número, dificulta o recomeço dos palestinos.
Quem é o Hamas?
Na tradução, Movimento de Resistência Islâmica, o Hamas foi criado em 1986 para combater a ocupação do território palestino por Israel em 1948, a partir da união de líderes filantrópicos que antes prestavam ações sociais a pessoas em condição de vulnerabilidade social. Hoje, o Hamas visa à expansão territorial, além da organização militar da Faixa de Gaza, o grupo deseja aniquilar o Estado de Israel.
“Um encontro secreto e histórico foi realizado em Hebron (...) o objetivo era despertar, unificar e mobilizar o povo palestino e fazê-lo entender a necessidade de independência sob a bandeira de Alá e do Islamismo.” O nascimento do Hamas é descrito no livro de Mosab Hassan Yousef, O Filho do Hamas. Inicialmente, o herdeiro de um dos sete fundadores do grupo destaca as primeiras intenções da organização, que atualmente é reconhecida por países europeus, pela América do Norte e pelo Japão como um grupo terrorista.
Quem vive na Faixa de Gaza atualmente?
Majoritariamente habitada por jovens e crianças palestinas, de fé muçulmana, a Faixa de Gaza é o lar de cerca de 2,2 milhões de pessoas, a maior parte descendente de refugiados expulsos em 1948 e 1967 após a criação do Estado de Israel. As distintas religiões dos países que cercam o Estado Palestino — Egito e Israel — dificultam a solução do conflito, especialmente entre a Faixa de Gaza, muçulmana, e Israel, judeu.
Qual o motivo da disputa/conflito?
A disputa entre Israel e a Faixa de Gaza tem origem histórica e envolve território, soberania e identidade nacional entre israelenses e palestinos. Enquanto o Estado de Israel afirma agir para conter um grupo armado que considera uma ameaça, os palestinos e alguns órgãos internacionais, como a ONU, apontam a ocupação, as restrições e a crise humanitária como genocídio do povo palestino.
O que esperar?
O cessar-fogo tende a ser mais uma pausa estratégica do que o ponto final dessa guerra. As acusações internacionais de genocídio, reconhecidas pela ONU, pressionam o Estado de Israel e o governo dos Estados Unidos a evitar que a violência se repita. Ademais, a liberação da ajuda humanitária alivia a situação da população palestina, todavia, os bairros destruídos exigem um plano de reconstrução para o recomeço das famílias desabrigadas, das crianças sem escola e dos doentes sem hospitais. A reincidência da negligência nos direitos humanos na reconstrução da dignidade dessas vidas tende a aumentar a radicalização dos conflitos, pois, para Mosab Hassan, “pessoas feridas ferem outras pessoas”. Sem a garantia dos direitos básicos, o cessar-fogo será somente mais uma pausa no conflito.
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