É possível salvar alguém que não consegue explicar sua dor?
- Pedro Teles Marin

- 22 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
No palco do Teatro VIVO (SP), ‘O Filho’ confronta essa pergunta com brutal honestidade e transforma o ambiente com intensidade, intimidade e tensão

Montada em mais de 20 países, a peça Le Fils do francês Florian Zeller ganhou uma versão inédita no Brasil, dirigida por Léo Stefanini. A peça original faz parte de uma trilogia teatral de Zeller: Le Père, La Mère e Le Fils. O premiado cineasta francês adaptou sua obra para o cinema em 2022, onde ele mesmo dirigiu. Há silêncios que pesam mais que palavras — e ‘O Filho’ constrói seu drama exatamente nesses vazios. O espetáculo tem uma alta relevância, com um tema que precisa ser discutido, retratado e entendido, a depressão na adolescência.
A peça conta a história do adolescente Nicolas (Andreas Trotta), de 16 anos, que apresenta sintomas de depressão. O jovem não consegue ver sentido em sua própria existência, se questionando inúmeras vezes se ela vale a pena. Desolado, não se sente compreendido pelos pais divorciados Ana (Maria Ribeiro) e Pedro (Gabriel Braga Nunes), e isso evoca ainda mais a sensação de sua vida não ter sentido ou vale à pena. O adolescente pede para deixar a casa da mãe e ir morar com o pai e a madrasta Sofia (Thais Lago), ao mesmo tempo em que está tentando reencontrar a motivação para viver. Entre culpa, negação e cansaço, ‘O Filho’ revela uma família que tenta ajudar, mas não sabe como.
Um drama íntimo, realista e deveras intenso, que traz o espectador para dentro da cena. Temas tão sensíveis como esse devem ser tratados com muita cautela, respeito e um uso certo da projeção, e nesta montagem brasileira fizeram isso e mais um pouco. Com um cenário fixo, transitando entre 3 locações, a casa da mãe, a do pai e a sala de um hospital, o ambiente se tornou algo tão real e digo que um tanto quanto “claustrofóbico”, não apenas fisicamente, mas também emocionalmente. Leva um certo incômodo ao público, isto porque o tema é delicado e o roteiro traz diálogos realistas, cenas que transitam entre uma certa calma e uma explosão de nervos, por parte dos personagens.
O que é mostrado em grande parte do espetáculo é a falta de comunicação entre o adolescente e os pais, gerando falhas na aproximação da trindade familiar. Os pais de Nicolas acreditam que estão fazendo o suficiente, mas na verdade não estão. A peça não fala sobre depressão — ela mostra a incapacidade de nomeá-la. Além disso o ponto central na peça é mostrar não o que acontece, mas como acontece, diante da negação da família em não querer ou não conseguir ver o que está diante deles: um filho de 16 anos que apresenta sintomas de depressão aguda. Atualmente há uma grande crescente em casos de depressão entre adolescentes, e isso não se restringe especificamente a nenhuma classe social. Inúmeros fatores podem contribuir para a situação, por exemplo o cyberbullying e fatores como a pressão social, escolar e sobretudo familiar. O que acontece quando os adultos enxergam tudo, menos o óbvio?
Além da depressão, a peça aborda temas como relações familiares fragilizadas, invisibilidade do sofrimento interno, a negligência quando o assunto é saúde mental, além da culpa e responsabilização. O roteiro de Florian Zeller foi adaptado por Carol Gonnzales, com maestria. Outro ponto muito bem trazido ao palco brasileiro foi o ritmo, a tensão empregada pelos atores e pelas circunstâncias do tema, fora o jogo de luzes e toda a construção da cena.
Entre cada bloco de atuação, o que diferenciava as diferentes locações era justamente o blecaute das cenas, fora uma sutil menção de tempo e espaço por um letreiro de led situado acima do palco. A encenação respeita a intimidade do texto, onde com a técnica dos atores consegue de forma brilhante amplificar este tema tão sensível e necessitado de discussões, tendo algumas partes onde percebe-se uma sutil menção de acontecimentos.
A ambientação emocional desperta no espectador o sentimento de angústia e de frieza, o que enfatiza a oscilação dos acontecimentos na trama dramática. Os atores carregam consigo a missão de levar ao público uma camada externa e interna dos personagens. E isso aconteceu, pelo menos comigo. Sentei-me na fileira B, cadeira 16, parecia a “fila do gargarejo” (fileira A), onde sempre que vou ao teatro gosto de me sentar. De lá pude ver todas as expressões, suspiros e todas as demonstrações dos atores. Tudo muito bem-feito e bem colocado.
O ator Andreas Trotta, que interpreta o personagem Nicolas, conhecido por seus papéis nos espetáculos “Petshop - O Musicão”, “O Mágico De Oz”, “Ney Matogrosso – Homem Com H”, “Silvio Santos Vem Aí”, “13 - O Musical” e “Heathers”, teve uma sensibilidade imensa ao interpretar o jovem. Foi com cuidado, uma boa técnica de atuação que o também jovem ator levou ao espectador todo o sofrimento e os sentimentos do personagem. Trotta passou uma veracidade fantástica ao atuar, de modo que fez uma retratação e uma representação coerente e coesa da dor silenciosa vivida por Nicolas. O uso dos olhares, da entonação e das pausas compuseram um arsenal de atuação e de dramaturgia que funcionou! O ator fez um ótimo trabalho e atuou tão bem que não parecia ser apenas um personagem, ele deu vida ao jovem de 16 anos, literalmente.
Maria Ribeiro (Tropa de Elite) e Gabriel Braga Nunes (Insensato Coração), como sempre desempenharam muito mais do que atuar. Deram vida, usaram de seu corpo como lar para as personagens que interpretam, Ana e Pedro respectivamente. É válido mencionar que os dois já veteranos no mercado do teatro são artistas excepcionais e que sempre dão um show de atuação. Ao analisar suas atuações, principalmente o sofrimento de sua personagem, Maria Ribeiro trouxe sentimento e personalidade à trama. O mesmo se aplica a Gabriel Braga Nunes, que em momentos da peça não parecia ser apenas um personagem. A persona que ambos deram vida falou mais alto, em outras palavras digo que são artistas impecáveis e que mostraram que o teatro brasileiro é composto de excelentes artistas.
Os outros membros do elenco também composto por Thais Lago, Marcio Marinello e Luciano Schwab tiveram um papel muito coerente e de muita emoção ao lidar com um assunto tão delicado quanto a depressão na adolescência. Gostei de verdade desta montagem e da composição do elenco, e digo com veracidade e propriedade, que temos grandes nomes no teatro nacional. A peça é um grande chamado para dar atenção a este assunto tão delicado que é a depressão, principalmente nos mais jovens. Parabéns a todo o elenco e à produção. Bravo!
Ficou com vontade de assistir? Não perca tempo, clique link abaixo para comprar os ingressos e se emocionar. O espetáculo está em cartaz até o dia 07 de dezembro, com sessões de quinta a sábado às 20h e aos domingos às 18h.
📍 Local: Teatro Vivo — Av. Chucri Zaidan, 2460, Morumbi, São Paulo
🎟️ Ingressos: de R$ 19,50 (popular meia) até R$ 150 (inteira).
➡️ Vendas pelo Sympla: https://bileto.sympla.com.br/event/110576/d/343602/s/2328873
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