Resenha de “Bugonia” (2025), de Yorgos Lanthimos
- Enzo Santos

- 10 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Abelhas, vida extraterrestre e sequestro são alguns dos temas do mais novo filme de Yorgos Lanthimos e estrelado por Emma Stone, em cartaz nos cinemas.

Bugonia acompanha dois jovens (Jesse Plemons e Aidan Delbis) que sequestram uma CEO bilionária (Emma Stone) por acreditarem que se trata, na verdade, de uma alienígena que planeja dominar e destruir o planeta Terra.
É neste clima de obsessão, desconfiança e paranoia que o enredo inteiro se desenrola. O roteiro de Will Tracy casa perfeitamente com a assinatura absurdista do diretor grego Yorgos Lanthimos ao apresentar uma obra de situações extremas com um humor ácido. Tudo isto com um quê de realismo assustador. Críticas à própria humanidade e a questões mais do que contemporâneas são bem presentes desde a sequência inicial, com o monólogo das abelhas e do equilíbrio ecológico.
O filme marca a quarta colaboração entre Lanthimos e Emma Stone. As outras produções foram A Favorita, o prestigiado Pobres Criaturas, e o não tão bem sucedido nas bilheterias Tipos de Gentileza.

As metáforas típicas do diretor estão vívidas em Bugonia. As abelhas representam o constante paralelo entre a organização social e os papéis desempenhados pelos diferentes tipos de abelha (neste caso, uma operária e uma rainha).
A questão das mudanças climáticas fundamentada no aumento do desaparecimento das abelhas é usada como premissa do conflito inicial. Em alguns momentos a ideia de responsabilização das grandes empresas quanto ao abuso da ecologia global é bem explícita, mesmo quando é apresentado “o outro lado da moeda”.
A atuação de Emma Stone aqui é marcada pela praticidade e posição de superioridade exercida por sua personagem — seja em seus discursos determinados e em sua posição imponente enquanto CEO, seja em sua prática pessoal de autodefesa e em seu preparo argumentativo. É uma interpretação crua que atinge o nível de desespero sufocante causado pelo sequestro e seus desdobramentos.

Entretanto o grande destaque do filme é Jesse Plemons, que interpreta profundamente a persona de um indivíduo traumatizado e rancoroso, com camadas implícitas em sua personalidade.
Quando Plemons e Stone dividem a tela há a completa absorção dos personagens em seus próprios mundos individuais — os dois personagens se encontram e confundem seus papéis. O confronto argumentativo em certo momento acaba por se mostrar motivado por questões pessoais e por transcender qualquer falso controle ou limite pré-estabelecido. As partes dos interrogatórios são onde um personagem tenta dominar o outro por meio de sua persuasão; é quando um tenta expôr o erro do outro.
Seja implícita ou explicitamente, o filme expõe as densidades dos protagonistas opostos, de uma forma que os aproxima com um vínculo de “vítima e opressor” tão volúvel e contraditório que deixa claro o compromisso narrativo de explorar complexidades, em detrimento de fáceis superficialidades. A subjetividade é o âmago da obra.

Outro argumento narrativo central é a obsessão oriunda do encontro de traumas internos com perturbações externas e elementos que sustentam neuroses. Os motivadores, no caso do filme, são a própria desinformação, fruto do acesso irresponsável à internet, e a difusão de fake news em fóruns online compostos por pessoas que apenas ressonam a mesma visão ufológica. Um ciclo delimitante é estabelecido e conduz a forma de pensar do personagem de Jesse Plemons, afastando-o da auto-criticidade e, portanto, da expansão de sua própria visão introvertida. A relação com o mundo externo também é prejudiada, à medida que todo o conceito de verdade é percebido em falácias que confundem a socialização. O personagem então se vê afundado em suas próprias convicções alienadas. Seu primo, personagem de Aidan Delbis, é completamente manipulável, ingênuo e suscetível às manipulações daqueles que o cercam; boa parte das cenas tragicômicas são conduzidas pelo jeito atrapalhado dele.
O fato de a dupla de sequestradores ser isolada da sociedade representa parte da discussão do filme. Quando não há mínimo amparo psicossocial e quando o algoritmo do consumo midiático online é nocivo, cria-se uma falsa impressão de que as teorias conspiracionais têm fundamento verdadeiro e é criado um ambiente mais do que fértil para devaneios sem embasamento. Esse isolamento motiva a realização de extremismos no filme — como as constantes torturas físicas e psicológicas —, sem admitir qualquer possibilidade de equívoco ou mal-entendido.

A sequência final é poética e carrega um forte simbolismo que, na verdade, acaba por refletir grande parte da crítica do subtexto narrativo misantrópico.
Em Bugonia a problemática dos impactos humanos sobre todo o planeta serve como um reflexo do aprofundamento estabelecido sucessivamente na narrativa. Dois discursos sobre o mesmo assunto são levantados: enquanto um é lógico e defende a remediação, o outro é radical e sustenta a condenação. A humanidade merece uma segunda chance? A condenação autoinfligida pode ser remediada? Nós, seres humanos, nos preocupamos o suficiente, a nível de mudar nossos comportamentos e pensamentos?

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