O que me sobrou
- Pedro Teles Marin

- 15 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

É segunda-feira, e como toda segunda-feira, recolho o resto do que me sobrou da noite anterior, depois da depressiva tarde de domingo. Mas qual graça teria, se não fosse assim? Acordo em um horário programado para não ter erro de voltar a dormir, sempre, toda segunda-feira acordo às quatro e quarenta e cinco da manhã. Primeiro coloco meu pé direito no chão, calçando meu chinelo, o porquê? Porque uma vez me disseram que quem acorda com o outro pé é do contra, e cansado de contrariar aos outros e a mim mesmo, acatei a ideia. Calço o outro chinelo, mas desta vez no pé esquerdo. Arrumo minha cama, para depois não procrastinar. Lavo meu rosto e mãos, penteio meu cabelo, visto meu terno, tiro o chinelo, coloco minhas meias e por último, meus sapatos Oxford.
Saio de casa às cinco horas em ponto, caminho rapidamente pelas ruas desertas de São Paulo, viro esquina atrás de esquina e como se fosse uma caça ao tesouro, ansioso para encontrar o baú, avisto o metrô. Com pressa, passo a catraca, espero na plataforma, entro no vagão, sento-me, levanto para uma senhora se sentar. Depois de quinze minutos, chego à padaria que sempre vou. Vou até o balcão.
O camarada, me vê uma média e um salgado, por favor!
Como e bebo rapidamente, pago com o último centavo que tenho em meu bolso, aperto o passo para não me atrasar, não posso me atrasar. Chego ao meu trabalho, um prédio alto, chique, antigo. Com um pedaço da maçaneta conseguiria pagar meu aluguel, já que é banhada a ouro. Coloco em meu peito meu crachá e fico na porta esperando quem quer que seja, que queria entrar ou sair do edifício. Ser porteiro foi a única coisa que me restou, digo isso porque já trabalhei com muitas coisas. Está frio, mas não posso reclamar, tenho um emprego. Meus pés estão doendo de frio, minhas mãos, não as sinto. Meio dia, horário de almoço, penso em ir comer algo, mas lembro que usei meus últimos trocados no café da manhã. Logo desperto desta ideia, e retomo minha consciência.
O vai e vem das pessoas no edifício me deixa reflexivo. Olho uma a uma sorrindo e desejando um bom dia, ou uma boa tarde e por fim, uma boa noite. Já são seis horas da tarde, ainda não comi nada desde o café da manhã, mas logo mais estarei em casa, e o frio só aumenta. Tenho um intervalo de trinta minutos, aproveito para ir até uma banca e conversar com meu amigo jornaleiro. Ele me dá um cigarro, acendo-o com seu isqueiro. Trago o cigarro até minha boca e trago na busca de um silenciador de pensamentos. O quanto mais eu tragava, mais calma ficava minha mente, e assim poderia continuar o trabalho.
Agora são oito horas da noite, falta apenas uma hora para o fim de meu expediente. Conto para as paredes e ladrilhos como foi meu dia, e como já de costume tenho alguém que não pode se distanciar, ou se mover, ou até mesmo se afastar de mim quando começo a contar coisas sobre meu dia. Elas, imóveis, ouvem com atenção minhas palavras, e posso ouvir sua voz, concordando com tudo o que falo, pelos buracos nos tijolos que a forma. O vento é nosso intermediário. Sem ele não as ouço e sem mim, elas não me escutam. Oito e meia, falta apenas meia hora para eu voltar para casa. Puxo papo com os ladrilhos, e estes por sua vez, se mantêm calados. Eles são mais sofridos que as paredes, sempre estão por baixo, me sinto um ladrilho às vezes, a única diferença é que não consigo ficar calado.
Nove horas, bato o ponto, saio pelas ruas geladas, e vou conversando com os ladrilhos, até que eles se despedem de mim e começo uma nova prosa com a terra presente na rua de casa. Não tenho ladrilhos em casa. Abro a porta, tiro os sapatos, meu terno e tomo um banho quente. Escovo os dentes, visto meu pijama, deito-me, acendo o abajur e me recordo do dia que se passou. Penso que a vida, por mais que seja difícil é justa às suas maneiras. Penso em tudo o que tenho, o que tive e o que quero ter. Penso no que me sobrou e como uma chuva no verão, adormeço, de repente.
É terça-feira, e como toda terça-feira, recolho o que me sobrou da noite anterior.
_edited.png)



Às vezes penso que o curso na Unesp perdeu um excelente escritor.