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Insônia

  • Foto do escritor: Yuri Coelho
    Yuri Coelho
  • 24 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 28 de set. de 2025


Insônia -     Ilustração feita pelo Chat-GPT
Ilustração feita pelo Chat-GPT

Deitado na cama, varando a noite por meio dos meus pensamentos. Já virou um costume. A vida vem em pedacinhos, memórias que se transformam em cenas de filme, repletas de um drama inflado pela solidão da insônia. Viro-me para o lado esquerdo da cama, o lado frio, e ponho-me a pensar na minha infância — as lembranças são embaralhadas, confusas e incompletas — , enquanto algo me diz que ela não chega ao fim, mesmo estando eu aqui, metido nas cobertas, com todos os meus dezoito anos.

De certa forma é frustrante. A ideia de não poder reviver algo com a mesma intensidade. Talvez seja estupidez, ou talvez a graça de todas as coisas esteja realmente resumida ao fenômeno do momento. Seria uma razão para o mantra clássico de “viver o presente”. Mas mantras, lemas ou até mesmo aforismos nunca abalaram a minha estrutura — digo que vão ao inferno e que possamos no futuro nos reencontrar, ainda que um pouco torrados pelo calor.

É fácil se distrair, mas torno meu mergulho psíquico eficiente e agarro-me a uma memória que tem sido recorrente.

Estou em 2014, ou 2015, dentro de um ônibus escolar que cheira a isopor e chuva. É noite, e por isso tudo parece mais irreal, as sombras se alongam como figuras oníricas e a luz é quase como uma aparição divina em um sonho. Mas a cena é simples: eu e Eduardo, sentados lado a lado, conversando sobre uma partida de futebol. Eu dizia coisas encorajadoras, elogios reconfortantes, talvez porque ele tivesse a impressão de que era um péssimo goleiro.

Mas, de repente, um branco no meu cérebro. Quando me enxergo novamente naquela noite, estou olhando através da janela, para as gotas de chuva coladas ao vidro, e estou cantando. Não me recordo a música, mas sim o silêncio que se fez: vertiginoso, mas não perturbador, o tipo de silêncio perfeito para uma melodia cantada por uma voz de criança.

Depois, o silêncio foi absoluto. Não se ouvia nada dos bancos da frente. O motorista era sempre calado, ao contrário da inspetora Márcia que, se não fosse pela luz refletida do celular, seria facilmente dada como morta naquele veículo. Nesse momento, Eduardo olha para mim, com os óculos fundos guardando olhos redondos de cara redonda. Ele parece tenso, o chacoalhar do ônibus desenhando um jogo de luz e sombra no seu rosto. Sustento seu olhar por um tempo, mas não por muito. Ele se inclina — era consideravelmente mais alto do que eu — e nossas bocas se encontram antes que eu pudesse perceber o que acontecia. A memória é impecável, destacando a paralisia do beijo, a rápida estática que subiu pelo meu peito e a lentidão com que nossos rostos se afastaram, com um toque de performance cinematográfica. 

Acho que arrisquei um sorriso, mas não tenho certeza: tudo depois já é um pouco nebuloso. Quero acreditar que ele sorriu, porque tenho a leve impressão de uma necessidade, algo que permaneceu no passado mas que de alguma forma perdurou até hoje. Um sentimento de felicidade imortal que não podia ser evidenciado por um menino de oito anos. Algo que nunca poderia morrer, nem se eu quisesse sufocá-lo para que seu feitiço se esgotasse.

A verdade é que, depois de Eduardo desafivelar o cinto, pegar sua mochila, andar até a inspetora Márcia e saltar do ônibus — dando um pequeno tchau de aceno de mão tímido, como se a mãe ao lado fosse a qualquer momento perscrutar as expressões mais singelas do seu ser para descobrir os segredos reprimidos que seu âmago guardava — aquele dia nunca pareceu existir para mim. Ele simplesmente sumiu sem alarde, sem vergonha, sem medo, sem explicações, como um aborto natural. 

A cena só se repetiu anos depois, reproduzindo-se na memória com calma ardida durante uma noite de insônia, carregando uma estranha sensação de que, por alguns minutos, eu poderia ter sido outra pessoa.



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