A Loucura
- Yuri Coelho

- 8 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Um homem e uma mulher dizem obscenidades um para o outro, bem em frente à porta do metrô. Todos ao redor passam de cabeça baixa, com o passo apertado e com expressão de indiferença, ainda que fingida. Eu me espanto: não consigo não ter medo. Mas de repente acho graça e dou um sorriso, daqueles que não podem ser vistos no seu rosto se você não quiser passar metade da vida numa clínica psiquiátrica. Porém, mesmo assim, acho graça. Vejo a loucura deles na minha.
Na plataforma, sigo o homem com os olhos, até que ele para ao meu lado e nada de interessante acontece. Talvez a loucura acabou, penso. As pessoas se amontoam em frente aos trilhos, o cheiro da chuva impregnado na massa dos corpos. Isso me faz perceber que estou cansado. Penso na minha casa, na minha cama, nos meus livros, nos meus cachorros, no meu programa de TV favorito, no sorvete de flocos na geladeira, no filtro de água da cozinha, na cadeira manchada de suco.
Um grito rompe a mesmice da plataforma. É um lamento choroso de uma criança, algo digno de um olhar sucinto que sustenta uma quantidade porosa de julgamentos. Isso me faz ter pena da criança.
— Eu joguei lá fora! Lá fora! — ela berrava.
As pessoas esticavam o pescoço em direção ao trilho e nada poderia me manter no lugar quanto aquilo. Consegui distinguir uma palavra dos cochichos: “carrinho”. A babá segurava sua mão com uma certeza meio diluída, o desconforto nos olhos era evidente. Mas só restava dizer coisas como “já passou” ou “tem mais em casa”.
Me lembrei de repente do homem ao constatar sua ausência. Ele não estava do meu lado. Avistei à frente a mochila amarela, o casaco de chuva verde e toda a camada de barba malfeita que tomava seu rosto como uma tinta fosca. Antes que qualquer um pudesse dizer alguma coisa ou esboçar qualquer reação, o homem que xingava a mulher há cinco minutos atrás se atirava nos trilhos enegrecidos em busca de um Hot Wheels.
Minha primeira impressão foi que ele iria morrer. Ou melhor, se matar. Mas seu corpo ressurgiu da borda da plataforma, e ele fez força para se arrastar para fora dos trilhos, como se estivesse se apoiando na borda de uma piscina para sair da água. O carrinho amarelo brilhava na sua mão tanto quanto o dente amarelado que ele mostrava ao sorrir. Ele abriu caminho até o menino, pôs-se de joelhos e disse:
— Taí, moleque
As mãos da criança se aproximavam do carrinho lentamente, quase como se Indiana Jones roubando o ídolo de ouro tivesse reencarnado no corpo do fedelho. Depois a cena acabou: o menino voltou a ser um amante médio de Roblox (em especial de Caça Brainrots), o homem da mochila tomou um esporro do segurança que não se limitou a chamar o coitado de “retardado” e “doente de merda” três vezes cada, e eu tive que participar da cena pós créditos entitulada “estudante e o sonho de sobreviver a um metrô entupido de gente fedida”.
Moral da história: o Ódio e o Carinho são irmãos gêmeos separados na maternidade. A Loucura é uma das suspeitas de ser a mãe.
Para ser mais simples (e correto, e menos otário): se xingar o próximo fosse proibido, o amor também seria. E nada vai me convencer de que o mundo seria um lugar bem pior do que já é se isso fosse realidade.
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