Maternidade Sem Romance: O livro Uma Duas de Eliane Brum
- Beatriz Borba

- 15 de nov. de 2025
- 2 min de leitura

Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre. Esse é só um dos impactantes trechos de “Uma Duas", da escritora e jornalista Eliane Brum. Aqui o amor incodicional e a raiva dilacerante são concebidos por meio de extremos físicos e mentais. Na relação mãe e filha é preciso mais de um parto.
A narrativa é sobre Laura e contada por ela. Quando a mãe é encontrada inconsciente em seu apartamento e fica internada na UTI, o cru sentimentalismo de Laura diante da doença da mãe é narrado com nada económicas doses de soco no estômago – na mesma medida que a ideia da morte da mãe soa insuportável, ela tem desejo de matá-la, de acabar de uma vez por todas com a ideia de ter o corpo físico da mãe junto do dela – “Me sentia ligada ao corpo dela como um daqueles cachorros que tem uma corda presa ao pescoço que os paralisa depois de alguns passos. No meu caso não era uma corda, mas um cordão umbilical”.
As memórias de Laura são narradas com ódio e desconforto, uma coreografia entre a sua relação com o corpo físico – a mão que enquanto escrevia era igual a da mãe, ela se assustava com as semelhanças. E suas percepções mentais – como ela lida e lidou com as atitudes da mãe. A história é construída para te deixar transtornado, as nuances da maldade e do lado cruel que existe dentro de todos nós é explicitado numa relação que é tantas vezes romantizada – a mãe e filha que estão longe de ser “Gilmore Girls”.

A obra de Eliane Brum não oferece o conforto do perdão fácil ou do amor idealizado, mas sim a libertação pela honestidade brutal. A narrativa é um espelho desconfortável que nos força encarar a complexidade das relações primárias. "Uma Duas" não é uma leitura para ser apreciada, mas para ser encarada, provando que a literatura, em sua forma mais crua, é o melhor instrumento para derrubar os mitos mais sagrados de nossa sociedade.
_edited.png)


Comentários