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O diálogo em mim: “Divã”, de Martha Medeiros

  • Foto do escritor: Beatriz Borba
    Beatriz Borba
  • 28 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 28 de set. de 2025



Capa do livro "Divã" - Martha Medeiros
Capa do livro "Divã" - Martha Medeiros | FOTO: Beatriz Borba


Na contracapa da edição de 2002 do livro “Divã”, Lya Luft afirma que Martha Medeiros escreve tocando em sentimentos sem ser sentimentaloide, é bem-humorada sem ser superficial e irônica sem ser maldosa. E essa, acredito, é a definição mais precisa sobre a maneira como a escritora constrói a protagonista Mercedes.


Com pouco mais de quarenta anos, professora de matemática, bem casada com Gustavo e mãe de três meninos, Mercedes deita-se no divã e se faz as perguntas fundamentais: “Quem sou eu?”, “O que eu quero?”, “Qual o valor da vida que construí até aqui?”. O que começa como uma simples brincadeira, um mero experimento de si, logo se transforma em um ato de libertação: poético, divertido e devastador.


A narrativa nos coloca diretamente no consultório, com a própria voz de Mercedes: “Sou eu que começo? Não sei bem o que dizer sobre mim. Por exemplo, odeio falar sobre crianças, empregadas e liquidações”. Cada capítulo é um dia de análise, feito em um monólogo que revela um complexo diálogo com nós, leitores. O leitor visualiza Mercedes, essa mulher madura e vivida, deitada no divã, gesticulando enquanto o analista, Lopes, anota em seu pequeno caderno as nuances e particularidades revisitadas pela paciente.


O grande anseio de Mercedes é extrair as raízes pacatas que a prendem a uma vida que já deu certo, que já atendeu a todas as expectativas alheias. Ela busca colocar ordem nas ideias que vivem em trânsito e tem medo da lucidez e da busca desenfreada pela verdade. Essa batalha ambígua, e talvez hipócrita, é travada diariamente dentro de nós. Extrair essas raízes não significa excluí-las, sair correndo e abandonar o que já foi feito, mas sim ressignificá-las. A personagem revisita sua adolescência, seus relacionamentos e a relação com os pais, as vivências cotidianas que nos moldam. De repente, o casamento que parecia tão pacífico já não tem a mesma importância – “E se a liberdade não for a ausência de laços, mas a mescla com outras vidas? E se a liberdade for o autoconhecimento gerado pela conveniência, e não pela reclusão?”.


Acima de tudo, ‘Divã’ é uma história que entra dentro de você e o faz questionar as recorrentes escolhas feitas sem pensar muito – que se revelam a chave para nuances internas – o que nos moldou, o que nos faz ser quem somos. É uma regressão em conjunto. Inicialmente, você, como leitor, faz o papel de analista, mas logo perceberá que também está deitado no divã.


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