A finitude da vida e a percepção de mundo em Se deus me chamar não vou
- Beatriz Borba

- há 5 dias
- 2 min de leitura

Em Se deus me chamar não vou, a autora brasileira Mariana Salomão Carrara — vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura — constrói uma protagonista cujas ideias, embora precoces, possuem uma lucidez um tanto quanto desconfortável.Uma história narrada pelo olhar de uma menina de onze anos repleta de perguntas, inseguranças e percepções aguçadas sobre o mundo, e que tem o poder de nos desarmar.
Desconfortável porque, embora as percepções da protagonista, Maria Carmen, pareçam prematuras, raramente consegui discordar delas. Esse encontro narrativo nos balança ao nos confrontar com nossas antigas ideias de infância, lembrando que aquelas inquietações talvez nunca tenham sido superadas, apenas silenciadas pelo tempo — por alguns, até mesmo enterradas nas entranhas de um corpo que já não se assemelha à infância.
Maria Carmen narra suas vivências diárias a partir de conexões bastante lógicas, que soam perigosamente corretas. Ela quer ser escritora e, numa espécie de quebra da quarta parede, a história que estamos lendo é o diário que usa para praticar a sua escrita: um diálogo silencioso e interno, bem direcionado a quem lê. Acredito que seja por isso que a narrativa se esconde em nós — conversas profundas costumam marcar território.
“Na aula de matemática o problema dizia que um menino e uma menina precisavam calcular quantas laranjas levar ao parque... E eu escrevi que não era pra levar nenhuma, que tudo é mentira, ninguém vai junto a parque nenhum nessa vida.”
A percepção que ela tem de si e do mundo ao redor me fez rir muitas vezes e desejar ter de volta essa liberdade fácil que a infância nos permite ter: um pessimismo melancólico, junto a um humor inteligente.
“Disse que os Planos são uns moços muito bonitos que ficam caminhando em volta da cabeça dos jovens e vão sumindo bem devagar.”
Os pais da menina são donos de uma loja de artigos para idosos, e a autora usa esse elemento com maestria para relacionar o envelhecimento inevitável à finitude da vida. Maria Carmen costuma sentir um cansaço precoce do mundo e, estando diariamente em contato com pessoas mais velhas, a velhice torna-se onipresente. Para ela, não é apenas o futuro, mas uma atmosfera que consome o presente e a faz questionar a morte e o medo — ou nem tanto — que sente dela.
Ao fim da leitura, me vi na posição de Maria Carmen, cheia de perguntas e indagações (ou análises prematuras?) sobre o mundo e as pessoas. Será que a maneira como ela escolheu narrar a própria vida revela uma exceção de infância ou se assemelha a maneira do que eu e muitos já fomos? A leitura me fez querer escrever mais sobre mim e sobre o que sinto. Por sorte — ou melodrama infantil — eu escrevia diários aos onze anos. Não seria adequado apresentá-los aqui, mas posso afirmar: Maria Carmen não é exceção, mas sim uma feliz chance de lembrarmos como éramos.




Me senti comovida com teu texto. Me transportei para anos atrás na infância e juventude. Um desejo de ter agora as escritas, as memórias e meus achismos sobre o mundo que vivo agora. Vontade de resgatar aquela pequena e fantasiosa Gertrudinha.