O disco sangrento de Bob Dylan: 50 anos de Blood on the Tracks
- Enzo Santos

- 22 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Em 2025 completa-se 50 anos desde o lançamento do prestigiado álbum Blood on the Tracks, de Bob Dylan.

Blood on the Tracks segue uma narrativa não-linear, e isso se dá porque, nas palavras de Bob Dylan, “eu queria desafiar o tempo, para que a história [do álbum] se passasse no presente e no passado simultaneamente”.
Apesar de explorar diversos assuntos nas músicas, a temática de término amoroso é a base do disco. Todo o conteúdo é reflexo do divórcio do compositor com sua esposa Sara. Para Graley Herren, professor de inglês da Universidade Xavier, “a comoção diante de um término doloroso é um dos mais longínquo temas para músicas pop, mas Dylan havia evitado esse tópico algumas vezes. No entanto, em Blood on the Tracks ele mergulha nessa temática aflitiva, expondo sua vulnerabilidade, arrependimento e raiva em relação à sua mulher e a si mesmo”.
A história artística do álbum
A origem do disco começa em 1966, quando um repentino acidente de moto faz Bob Dylan mergulhar em anos de isolamento. Nesse meio tempo, no final dos anos 60, o compositor começou a sofrer de um bloqueio criativo. No início da década seguinte, o lançamento de alguns de seus discos (como Self Portrait e Dylan) foi considerado um fracasso.
A reclusão durou até o início de 1974, quando ele decidiu “voltar à estrada” com a The Band. Foi depois dessa turnê que Bob Dylan compôs as músicas do disco Blood on the Tracks. As composições, não por acaso, aconteceram em um momento pessoal conturbado: eram os primeiros momentos que culminariam em seu divórcio. O artista se dedicava a ser um marido e pai presente durante os anos de retiro, mas as exigências do público e da crítica voltavam a demandar todo o seu tempo e atenção.
Em meio ao caos despertado em seu casamento com Sara, Bob decidiu tomar aulas de arte plástica — assim começava sua relação com o professor e pintor russo-americano Norman Raeben.
Durante os dois meses de aula, o professor de arte despertou grande interesse no músico. “Eu já conheci mágicos, mas esse cara é mais poderoso que qualquer mágico que já conheci. Ele olha para você e diz o que você foi. [...] Ele uniu minha mente, minha mão e meu olho, de um modo que me permitia fazer conscientemente o que eu sentia inconscientemente.” Segundo Bob, a absorção das aulas foi o início de seu rompimento com Sara, uma vez que “aquilo me mudou. Voltei para casa após a primeira aula e minha mulher nunca mais me entendeu desde aquele dia. Foi aí que nosso casamento começou a desmoronar. Ela não entendia mais sobre o que eu estava falando, sobre o que eu estava pensando. E eu não conseguia explicar”.
Norman Raeben reacendeu a chama de Bob Dylan de criar não “apenas” canções, mas de fazer música de uma nova maneira; ele o ensinou a criar narrativas que colocavam “ontem, hoje e amanhã, todos no mesmo lugar”. Para Graley Herren, esse contato com outra arte capacitou Bob Dylan a transformar seu ofício em algo inovador, que unifica duas perspectivas: “a pintura é uma forma de arte espacial — tudo está lá [no quadro] de uma só vez —, e a música é uma forma de arte temporal — que se desenvolve ao longo do tempo, nota após nota, linha após linha, verso após verso”.
Essa inspiração mística se estendeu à histórica turnê Rolling Thunder Revue de 1975 e 1976, com shows improvisados e intimistas. De acordo com Robert Shelton, crítico musical, Bob Dylan sempre desejou se reunir com outros músicos. “Do verão de 1975 em diante, Dylan fez um esforço ainda mais concentrado para forjar uma comunidade de cantores.” A turnê, que contou com a presença de diferentes artistas — como Joan Baez, Allen Ginsberg e Roger McGuinn —, ficou marcada por ser imprevisível e com uma atmosfera cigana, com encenações e comunhão entre seus integrantes. Tudo isso fez lembrar uma peregrinação de um circo caótico.

As gravações e o lançamento
As gravações de Blood on the Tracks começam no estúdio A da Columbia em Manhattan, em setembro de 1974; uma banda foi reunida de última hora para acompanhar o músico. Com um Dylan impetuoso que não aceitava muitas tomadas e alterações, as gravações terminaram em apenas quatro dias. O guitarrista Eric Weissberg lembra que “tive a impressão de que Bob [Dylan] não estava se concentrando, e de que ele não estava querendo gravações perfeitas. Ele ficou bebendo bastante vinho, estava um pouco bêbado, mas insistia em continuar gravando, indo para a próxima música sem corrigir erros óbvios”.
Pouco tempo depois, algumas faixas-demo foram sendo distribuídas em algumas rádios para uma preview; e o lançamento oficial estava previsto para o dia de Natal do mesmo ano. David Zimmerman, irmão de Bob, aconselhou dizendo que seria um desastre comercial. Dylan rapidamente exigiu a retirada das músicas e interrompeu o lançamento oficial do LP.
No final de dezembro de 1974 Bob Dylan apareceria no estúdio Sound 80 em Minneapolis, reunindo músicos locais para serem sua banda improvisada. Com mais suavidade na voz e mais tranquilidade em seu jeito, as gravações foram finalizadas em mais quatro dias. Na estruturação final, foram mantidas metade das faixas de Manhattan e metade das de Minneapolis. Em meio às pressas e a tanta ansiedade, Blood on the Tracks foi apresentado ao mundo em 20 de janeiro de 1975.
Como se estivesse renascendo após tanto tempo turbulento e instável criativamente, o lançamento de Blood on the Tracks foi rapidamente um sucesso em todos os sentidos. Mesmo já possuindo em sua carreira inúmeros LPs influentes e de enorme sucesso (como descrito posteriormente na lista da Rolling Stone dos 500 melhores álbuns), foi Blood on the Tracks o que mais vendeu cópias em menos tempo. Entretanto, ainda assim a crítica ficou dividida a princípio, tecendo comentários contraditórios. Robert Christgau, jornalista musical, comentou na época que “o tema predominante do amor interrompido lembra angústias adolescentes, mas no conjunto é o trabalho mais maduro e seguro do artista”.
O simbolismo do álbum
Apesar das semelhanças entre as letras e a vida pessoal de Dylan, ele afirma que na verdade sua inspiração veio dos contos de Anton Tchekhov. “Não acho que alguém realmente acredite nisso”, comenta Graley Herren. “Não pode ser apenas coincidência o fato de ele escrever suas músicas mais comoventes sobre um término amoroso justamente no mesmo momento em que estava passando por uma situação semelhante com sua esposa Sara. [...] Sua inspiração inicial com certeza tem relação com o que ele estava pensando e sentindo quanto à decadência de seu casamento.”
O lirismo do disco aponta para um estado de vulnerabilidade talvez nunca mais exposto pelo poeta-compositor. O filho Jakob Dylan, também músico, disse que o álbum é uma conversa entre seus pais.
Bob Dylan arranjara um meio de focalizar, dessa vez conscientemente, aquilo que havia aprendido com a perspectiva pictórica transcendental. Agora ele externalizava as divergências de sua vida.
Anos após o lançamento bem-sucedido da odisseia íntima e visceral de Blood on the Tracks, Bob Dylan comentou que “muita gente me diz que gostaram deste álbum. É difícil para mim me identificar com isso — quero dizer, as pessoas curtindo esse tipo de dor”.

_edited.png)


Comentários