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Música também é política e resistência

  • Foto do escritor: Ana Beatriz Carvalho
    Ana Beatriz Carvalho
  • 16 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan usaram sua voz para lutar contra a ditadura e hoje, 52 anos depois, continuam bradando as mesmas canções na missão de preservar a democracia.


Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan
FOTO: Reprodução | Instagram Chico Buarque | Michele Gomes | Midia Ninja

“Apesar de Você, amanhã há de ser outro dia”


“Apesar de Você”, canção de Chico Buarque lançada em 1970, virou um hino contra a ditadura militar enfrentada pelo Brasil durante os anos de 1964 a 1985.


Em um período onde a democracia havia, de fato, ido por água abaixo, artistas se uniam à população para exigir seus direitos básicos de liberdade e expressão. Música, cinema, poesia e mobilizações eram alguns dos caminhos encontrados por um povo desesperado para recuperar sua voz.


Nesse meio artístico, algumas personalidades se destacaram com tamanha ênfase: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Milton Nascimento, Geraldo Vandré, Elis Regina e, claro, Chico.


As letras, sabiamente escritas para burlarem a censura, ecoavam como gritos de guerra nos pulmões sufocados de uma nação forçada a se calar. Eram um meio de união, uma forma de manter viva a esperança de um futuro melhor.


Acontece que hoje, 40 anos após a derrubada do regime autoritário, as mesmas canções estão sendo gritadas pelas bocas dos mesmos que as escreveram. E, pasmem, são acompanhados por um coro de cidadãos apavorados pela mesma ameaça: a destruição da democracia.


No dia 08 de Janeiro de 2023, o ex-presidente Jair Bolsonaro incitou um golpe de estado. Convocados por redes sociais, golpistas e vândalos que estavam acampados há meses em frente ao Quartel General do Exército seguiram em direção à Esplanada dos Ministérios, como relatado pelo portal G1. Os danos materiais foram exacerbados, mas pior ainda foi a atmosfera de indignação, revolta e incerteza que rapidamente se espalhou por toda a nação. 


A maior autoridade havia incentivado a população a degradar bens que pertenciam a todos eles, que contavam a sua história. E não somente, colocava em "xeque" sua segurança e liberdade, valores que deveriam ser terminantemente inegociáveis.


Uma ação dessas não pode passar impune, muito menos cair no esquecimento. Por esse motivo, entre 2 e 12 de Setembro de 2025, Jair foi julgado, assim como seus cúmplices, pela tentativa de golpe de estado e atentado à democracia.


Como se não fosse suficiente, quatro dias após a condenação do ex-presidente à 27 anos de cadeia, a Câmara dos Deputados aprovou uma proposta de emenda constitucional chamada PEC da Blindagem. Consiste basicamente no impedimento de investigações e sentenças judiciais contra deputados e senadores pelo STF (Supremo Tribunal de Justiça). Ou seja, torna quase impossível punir judicialmente um congressista, independente do absurdo que for cometido.


Em nome da soberania brasileira, garantia dos direitos prometidos ao povo e como um clamor desesperado por justiça, no domingo de 21 de setembro, a população foi às ruas acompanhada por um grupo de peso: Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Paulinho da Viola, Daniela Mercury, Lenine entre tantos outros. 


Os “showmícios” são a prova, em som e cores, de que música também é política e resistência. 


“Mas estou envergonhado/ Com as coisas que eu vi/ Mas não vou ficar calado/ No conforto, acomodado/ Como tantos por aí”- É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, Erasmo Carlos (1971)


“Minha dor é perceber/ Que apesar de termos/ Feito tudo o que fizemos/ Ainda somos os mesmos/ E vivemos/ Como nossos pais” - Como nossos pais, Elis Regina (1976)


“Amanhã vai ser outro dia/ Hoje você é quem manda/ Falou ‘tá falado/ Não tem discussão, não/ A minha gente hoje anda falando de lado/ E olhando pro chão, viu” - Chico Buarque (1978)


Quer algo mais bonito do que gritos de guerra que percorrem gerações e motivam o povo a lutar pelo o que é seu?


A música é o formato cultural que corre por nossas veias, assim como nosso sangue, entrando em contato direto com o coração e nos impulsionando a viver.


As canções falam o que muitas vezes não conseguimos dizer. Unem palavras à melodias que traduzem nossos desejos, súplicas, declarações.


Música não tem data de validade. Ela resiste, se reinventa, ganha novos significados e toca novas almas.


O movimento que se espalhou por diversos estados brasileiros no último mês é a concretização destes ideais tão bonitos. Munidos de cultura, população e artistas se uniram para cantar suas dores e brandar por mudanças.


Que continuemos usando da arte para lutar pacificamente, mas jamais passivamente. 


Até porque, assim como disse Elis, “Mas sei que uma dor assim pungente/ Não há de ser inútilmente/ A esperança/ Dança na corda bamba de sombrinha/ E em cada passo dessa linha/ Pode se machucar”. (O bêbado e a equilibrista - Elis Regina, 1979)


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