O que a moda de O Diabo Veste Prada diz sobre 2006 e 2026?
- Sofia Sá
- 24 de mai.
- 6 min de leitura
A transição da moda (e do mundo) nos últimos 20 anos, mediada pelo filme O Diabo Veste Prada 1 e 2.

Quando pensamos na moda de 2006, revivemos um momento em que as tendências fashionistas eram ditadas pelas revistas, filmes e outras produções artísticas; inclusive a própria revista fictícia Runaway que ditava as tendências do mundo da ficção. Patricia Field teve um papel importantíssimo como primeira figurinista da trama, porque foi o seu trabalho no longa que ditou as tendências de moda daquela época. O visual icônico e a transformação da personagem Andy Sachs (Anne Hathaway) foram compostos por peças de marcas como Chanel, Valentino, Calvin Klein e Jimmy Choo; todas escolhidas por Patricia. Ela foi a mulher que conseguiu transformar um orçamento de 100 mil em 1 milhão de dólares, pedindo peças emprestadas de grandes grifes.
Passamos desse momento em que o supra sumo da moda se baseava em marcas de grife e de luxo, e as revistas impulsionavam cada vez mais esse mercado, expondo esses itens como as peças icônicas daquele momento, transformando inclusive as personagens do filme, como Andy; para um momento em que, são as produções artísticas que precisam estar dentro dos padrões desenvolvidos pelas redes sociais. A métrica da moda é medida pelas “curtidas” do Instagram, pela quantidade de cliques em uma tela…
Por um outro lado mais positivo, hoje em dia, a tecnologia também expõe um fantasma do mundo da moda, que antes assombrava apenas os donos das marcas, mas nunca seus consumidores: o que acontece dentro dos meios de produção de suas coleções. Quanto custou para o meio ambiente, para a mão de obra, para a poluição, toda produção de luxo (lixo)? Uma dúvida que já pairava no ar, mas nunca era realmente perguntada para ninguém e as marcas não queriam prestar muita atenção.

Em 2026, a sequência recebe Molly Rogers, que trabalhou com a figurinista original, assinando os looks dessa nova era. Cada personagem continua mantendo o seu “DNA” visual, considerando todas as mudanças dos últimos 20 anos. Miranda Priestly continua com silhuetas limpas e elegantes e Andy Sachs agora apresenta um estilo já mais maduro, misturando peças contemporâneas, vintage e itens do closet da Runaway.
Que houve mudanças no mundo da moda durante as últimas duas décadas, é fato, mas o que essas mudanças revelam sobre esses 20 anos?
Moda (sociedade) “algoritmizada”
Em 2006 nem o primeiro smartphone da Apple havia sido lançado, portanto, não existia nem sinal da Meta e das redes sociais, como Facebook, Instagram, Tiktok, Pinterest e todos os aplicativos que moldam a sociedade atual. No primeiro “O Diabo Veste Prada”, quem molda a vida, os pensamentos e os desejos das pessoas são os meios artísticos de comunicação daquela época, como filmes, programas de TV e, obviamente, revistas.
Até aí pode parecer não ter mudado quase nada, afinal continuamos sendo influenciados por aquilo que consumimos, não é mesmo? Mas a diferença (gritante) está na finalidade por trás daquilo que consumimos. Vou explicar:
Há vinte anos o que influenciava diferentes gerações tinha o seguinte propósito: trazer a moda como arte, o vestir ser um ato de resistência; mesmo que esbanjar o luxo fosse ruim, ele ainda estava dentro de um patamar artístico muito alto. Era essa a finalidade do que as revistas ou programas de TV rotulavam como tendência. Moda era sinônimo de arte. Luxo era o alto padrão da arte, por isso todos almejavam tê-lo.

Mas agora… Bom, agora a moda se tornou sinônimo de consumo, consumo desenfreado para falar com sinceridade. O algoritmo impulsiona a troca de coleção, as marcas dependem de influenciadores para serem compradas, uma revista precisa estar no mundo digital e receber uma boa quantidade de cliques em seus artigos para ter relevância. O império da Runaway está lutando para não falir. Os meios de comunicação, que antes eram artísticos, hoje são constituídos de métricas algorítmicas e tendências de marketing de consumo. As palavras ficaram mais rebuscadas, mas a ideia ficou mais fácil de entender: a moda não precisa significar nada, ela é apenas um produto para ser consumido em larga escala.
E, quando entramos no tópico “consumismo desenfreado", entramos na segunda mudança dessas últimas duas décadas: a preocupação com o meio ambiente, quando se produz rapidamente e desproporcionalmente.
Fantasma do meio ambiente
Durante essas duas décadas a nossa relação com o consumo passou por uma mudança drástica. Em 2006, embora a produção em grande escala já fosse uma realidade do ideário capitalista, o fenômeno fast fashion ainda não havia atingido o nível frenético de hoje, impulsionado por grandes nomes como Shein, ZARA, ect.. Atualmente, a moda foi transformada em um consumo de apenas “cliques”, no qual o modelo de produção fabrica deliberadamente mais produtos do que o mercado consegue absorver, resultando em uma crise planetária sem precedentes.
Esse estilo de vida moderno gerou um aumento alarmante no descarte de resíduos, na poluição dos recursos naturais e em uma pegada de carbono devastadora da moda, além de intensificar o uso desmedido da água e a exploração de mão de obra barata (análoga a escravidão). Embora muitas dessas condições de exploração e degradação ambiental já existissem na época do lançamento do primeiro filme, elas operavam sob um manto de invisibilidade, como um fantasma.

A grande diferença em 2026 é que a consciência crítica da sociedade, amplificada pelas redes sociais (aparecendo de forma positiva pela primeira vez nesse texto), “desmascarou” essas práticas. O que antes era ignorado em nome do luxo, agora é exposto publicamente por cidadãos que utilizam a informação como uma forma de educação política, exigindo relações mais éticas entre a indústria e a natureza. A crise socioambiental tornou-se “horrivel demais para ser ignorada”, forçando marcas e consumidores a saírem da inércia.
Essa nova realidade é o motor do conflito central da sequência: a influente revista Runaway encontra-se no centro de um escândalo, sendo acusada de manter relações com empresas de fast fashion envolvidas em problemas socioambientais. É nesse cenário de tensão que a figura de Andy se destaca como jornalista e uma voz de resistência contra essas acusações. Não só através de seus artigos, mas no seu jeito próprio de se vestir, ela promove uma visão mais consciente; com um guarda roupa baseado em brechós e moda circular, por exemplo. Ela personifica a busca por um novo padrão civilizatório, em que a elegância reside na sustentabilidade e no respeito ao futuro do planeta.
Personagens depois desses 20 anos
Quando Molly Rogers assume o stylist da sequência, ela nos comunica, através das escolhas de looks, a mesma essência de cada personagem de vinte anos atrás, mas com pequenas mudanças que evidenciam um crescimento pessoal de cada um e até da própria revista em si.
Começando por Miranda Priestly (Meryl Streep), que continua sendo a personificação da autoridade, seus looks em 2026 refletem poder, elegância e sofisticação, mas, por um outro lado, mais livre, sem precisar parecer (e ser) distante de sua equipe. Dando um destaque para a jaqueta Dries Van Noten coberta de tassels (penduricalhos), que resume numa peça só essa mudança de sair desse pedestal, em que ela sempre esteve, e descer para uma autoridade mais divertida e menos temida. Inclusive, romper essa barreira a faz ter mais aliados contra o grande vilão do filme (e do mundo atual): a algoritmização.

Seguindo para Andy Sachs, seu estilo deixou de ser influenciável, mostrando muito mais autoconfiança, não só nesse quesito, mas nos artigos, na forma de se portar e na sua relação com o trabalho. Ela repete itens constantemente, tornando-se uma personagem mais realista, que valoriza o “pre-loved” (peças de segunda mão de luxo) em vez do consumo desenfreado; como por exemplo seu blazer à risca de giz. Seu estilo agora traz muitas referências da excentricidade de Annie Hall (Diane Keaton), incorporando gravatas, coletes, suspensórios e estampas.
Para finalizar, agora falando sobre a revista Runaway, a maior prova de sua evolução criativa está no chão dos seus corredores. Em 2006, o ambiente era dominado pelos “Clackers”, apelido dado por Andy aos funcionários devido ao barulho incessante de seus saltos finos. Esse som simbolizava a rigidez e a uniformidade de uma era em que a aparência era um padrão imposto e muitas vezes desconfortável. E, em 2026, esse cenário é rompido por Amari (Simone Ashley), a nova assistente de Miranda Priestly.
Diferente da conformidade do passado, Amari representa liberdade criativa e a experimentação: ela eleva o estilo preppy (colegial) através de peças de Thom Browne, misturando-as com silhuetas esculturais e materiais subversivos, como látex e pelúcias volumosas. Enquanto as assistentes de 20 anos atrás buscavam se “encaixar”, Amari usa a moda para descobrir seu próprio estilo, equilibrando o clássico e o ousado em uma sintonia vibrante.

Moda: uma forma de arte mais consciente
Durante essas duas décadas passamos por inúmeras mudanças ambientais, tecnológicas, sociais… E a moda, como um reflexo da sociedade, acompanhou todas elas e permanece firme, mais politizada, consciente e resistindo, como uma forma de arte e de comunicação.
A trajetória de O Diabo Veste Prada, ao longo das décadas, prova isso: que a moda, enquanto arte, sempre resistirá. Mesmo com a algoritmização, com o consumismo desmedido e sem propósito, com as crises socioambientais, com a reforma do que significa luxo na sociedade. Seja no som dos saltos finos, ou na moda circular de Andy, ou na elegância de Miranda, ou na ousadia do látex de Amari, a roupa continua sendo a narrativa mais poderosa de quem somos e do mundo que queremos construir.


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