Marina Lima e a recusa ao óbvio
- Pedro Teles Marin

- 25 de mar.
- 3 min de leitura
Em "Ópera Grunkie", a cantora cria um universo próprio e autêntico, o que dividiu opiniões entre os críticos.

Eu me aproximei de Marina Lima há um tempo, não no sentido literal de proximidade física — musical, onde acho que chega a ser quase a mesma coisa — conhecendo seus clássicos mais e mais. Com isso, descobri mais do que uma cantora pop brasileira, descobri uma mulher completa e que desafia e inova em cada estrofe de suas canções. Esse desafio é algo maravilhoso de se perceber e também de se conflitar ao ouvir as declarações da cantora carioca.
Quando foi anunciado que Marina iria lançar um novo álbum, fiquei animado em ter mais canções para ouvir sem parar. O disco "Ópera Grunkie" foi lançado ontem (24) e logo que saiu corri para escutar, do começo ao fim. Me surpreendi com a o estilo autêntico e mais pausado que a cantora conduziu sua obra. Este é o disco comemorativo dos seus 70 anos de vida e 45 de carreira. Comemoração esta que se estende em uma nova turnê, a "Rota 69".
Criei expectativas com a novidade sonora e digo com sinceridade que elas foram atendidas. Não sou uma pessoa que gosta de monotonia, e isso se aplica à música também. Uma das coisas que me faz apreciar e admirar mais a persona e artista que Marina é, é sua autenticidade e sua forma única de transitar entre os estilos sonoros existentes, ou os que ela mesma inventa. Marina nunca foi uma artista de repetir fórmulas e não seria agora que ela o faria. Confesso que esperar isso é não compreender sua carreira, regada por inovação e claro, por originalidade.

Não são "Acontecimentos" explosivos — são movimentos sutis — que ornam muito bem com sua nova fase. Dizer que o álbum da cantora não tem "ideias sólidas" é porque não entendeu sua proposta. O disco foi gravado em 2025, e conta com 12 faixas, sendo a primeira intitulada "Abertura" e a última "Finale" (Bhrama Chopin). Para mim, os grandes destaques são "Partiu", "Perda", "Um Dia Na Vida", "Olívia" e "Chega Pra Mim". Marina contou com a participação de Ana Frango Elétrico (Um Dia Na Vida), Laura Diaz (Collab Grunkie) e Adriana Calcanhotto (Chega Pra Mim).
Com colagens sonoras e muitas experimentações acústicas, o ouvinte se ambienta em uma atmosfera diferente do que os "críticos" estavam acostumados, o que volta no que disse acima: Marina Lima não repete fórmulas. A grande premissa da cantora é ser original e autêntica, e neste álbum pode-se ver isso e muito mais.
Há também um silêncio atravessando o álbum, em meio às colagens sonoras: a perda de seu irmão Antonio Cicero, onde o silêncio também é música. Além de seu irmão, era seu parceiro criativo, e essa ausência é marcada de forma emocional e não física.
É um trabalho introspectivo, fragmentado, e dizer que "Ópera Grunkie" é precário em ideias ou que algumas faixas, mixagens são preguiçosas é o atestado de que não se interpretou a profundidade da obra, tampouco a artista. Assim como outras camadas da arte que seguem a mesma linha, a intérprete não busca agradar, mas sim provocar. "Olívia" carrega consigo originalidade e uma vertente cotidiana, moderna e que faz da "confusão" algo limpo e não algo constrangedor.

Além das participações das cantoras, a obra conta com vozes de Fernanda Montenegro em "Collab Grunkie", Eduardo Gianetti e Antônio Carlos Secchin — imortais da ABL (Academia Brasileira de Letras) — juntamente com Fernando Muniz, professor e filósofo, para reunidos fazerem a leitura de trechos de poemas de Antonio Cicero em "Perda". "Ópera Grunkie" não quer seguir um caminho linear e regrado, quer ser livre, assim como o termo usado por Marina. "Grunkie" é um termo que foi popularizado por ela e refere-se a uma tribo de artistas livres, inteligentes e talentosos. E ela é assim.
Não sairei dessa coluna "À Francesa", sem dizer que muito mais do que excepcional, essa artista é "Fullgás". Sempre espero os "Acontecimentos" da música e dos lançamentos, anúncios de shows. Mesmo que seja ela — Marina segue fiel à sua inquietação, e não quer "Nada por Mim". Quer apenas experimentar. E ela é essa "Pessoa" que não vive do passado, o usa como base "Pra Começar" e ir além e sempre colocar o "Pé Na Tábua", em busca de originalidade.
Aos 70 anos, Marina Lima não precisa provar nada, sempre segue com o maior "Charme Do Mundo" formado e carregado com sua essência única e muitas vezes incompreendida, mas isso é folha virada. "Ópera Grunkie" pode não ser seu disco mais acessível, mas está longe de ser seu disco mais vazio. E, em tempos de música cada vez mais previsível, isso já é um gesto artístico poderoso. Marina, "Eu Te Amo Você".





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