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“Brazilcore” contra a polarização: a estética brasileira como tentativa de retomada simbólica

  • Sofia Sá
  • 16 de jun.
  • 5 min de leitura

“Brazilcore”, tendência estrangeira que enaltece cultura e estereótipos brasileiros, retoma pertencimento e nacionalismo brasileiro nesse período de Copa do Mundo. 


Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

O fenômeno "Brazilcore" consolidou-se como uma das tendências de moda mais comentadas em plataformas como TikTok, Instagram e Pinterest, transformando o verde e amarelo em um símbolo estético global. Mais do que uma simples escolha de cores, a trend utiliza elementos do cotidiano brasileiro, como o uniforme da seleção, os chinelos Havaianas e estampas tropicais, para criar uma imagem concreta e altamente compartilhável da identidade nacional no exterior. Essa estética, que transita entre o popular e o estereotípico, ganhou força nos últimos anos através de editoriais e hashtags que só crescem nas redes, transformando o que é genuinamente brasileiro em um estilo de vida desejado internacionalmente. 

O grande estopim para essa febre internacional foi a adesão de celebridades influentes como a cantora espanhola Rosalía e as modelos Hailey Bieber e Tina Kunakey, que ajudaram a elevar elementos da "moda de favela" ao status de luxo global. Peças e acessórios que por muito tempo foram estigmatizados no próprio Brasil como "cafonas" ou "coisas de pobre" passaram a ser vistos sob uma aura cool após serem chancelados por grifes europeias e figuras da cultura pop internacional. Essa apropriação global acabou convertendo códigos periféricos brasileiros em produtos valorizados, muitas vezes vendidos exclusivamente nos mercados americano e europeu. 

 





Respectivamente: Hailey Bieber, Rosalía e Tina Kunakey na estética “brazil core” - Foto: Reprodução/Instagram 
Respectivamente: Hailey Bieber, Rosalía e Tina Kunakey na estética “brazil core” - Foto: Reprodução/Instagram 

Contudo, essa celebração global do verde e amarelo revela uma contradição latente: enquanto o mundo abraça a estética brasileira, o brasileiro ainda lida com as marcas deixadas pela polarização política. Desde 2014, a camisa da seleção e a bandeira nacional foram apropriadas por movimentos de extrema-direita e pelo “bolsonarismo”, o que esgarçou a identidade unificadora desses símbolos e fez com que muitos cidadãos evitassem usá-los para não serem associados a uma vertente partidária específica.  

Como o símbolo brasileiro virou uniforme político 

 

O processo de apropriação política da camisa da seleção brasileira teve raízes nas manifestações de junho de 2013, ganhando força logo após a reeleição de Dilma Rousseff em 2014. Naquele momento, o uniforme verde e amarelo passou a ser utilizado como uma bandeira de patriotismo e uma postura "sem partido" contra o sistema político vigente. Movimentos como o “MBL” e o “Vem Pra Rua” organizaram atos em que as cores nacionais serviam para desvincular os manifestantes de espectros partidários tradicionais, focando em pautas como o impeachment e o combate à corrupção. 

 

A partir de 2018, o cenário mudou drasticamente com a consolidação do símbolo como um emblema direto da direita conservadora e do “bolsonarismo”. A camisa deixou de ser um ícone unificador para representar o que historiadores chamam de "partido da camisa amarela", gerando um profundo esgarçamento da identidade nacional ao associar as cores do país a um único espectro ideológico. Essa apropriação foi tão intensa que a própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF) chegou a manifestar apreensão com o uso político e segregador do item, defendendo que a camisa deveria servir para unir, e não para separar os brasileiros. 

 

Essa politização extrema criou um clima de desconforto para grande parte da população, que passou a sentir vergonha ou receio de vestir o verde e amarelo fora de contextos estritamente esportivos. O uso da camisa da seleção tornou-se um ato carregado de conotações políticas conservadoras, fazendo com que muitos brasileiros buscassem outras cores para torcer ou evitassem o uso da bandeira para não serem associados a uma vertente partidária específica. O resultado foi uma crise na imagem da seleção, onde a relação entre o torcedor e seus símbolos nacionais tornou-se marcada pela tensão e pelo afastamento. 

 

Para analisar esse fenômeno sob a ótica do comportamento, conversamos com Mariana Norberto, especialista em tendências e estratégia com mais de 15 anos de trajetória no universo da moda. Segundo ela, embora o fenômeno “Brazilcore” ajude a devolver esses símbolos ao cotidiano, ele não apaga automaticamente a carga política acumulada nos últimos anos. Mariana destaca que a moda tem a capacidade de abrir espaço para novas narrativas e ressignificar códigos culturais; para a especialista, o maior mérito dessa tendência é mostrar que "nenhum grupo tem exclusividade sobre símbolos que pertencem à cultura brasileira". 


O chancelamento estrangeiro e nossa síndrome de vira-lata  

 

O prestígio urbano de símbolos genuinamente brasileiros muitas vezes percorre um caminho irônico: precisa atravessar o oceano para ser validado antes de ser plenamente aceito em casa. Um exemplo emblemático desse fenômeno ocorreu quando os chinelos Havaianas, historicamente restritos ao ambiente praiano ou informal no Brasil, foram desfilados em combinações com alfaiataria durante a Copenhagen Fashion Week. Somente após esse "selo de sofisticação" conferido pela capital dinamarquesa é que o item passou a ser reinterpretado em contextos urbanos formais brasileiros, revelando uma persistente dependência da chancela estrangeira para a valorização de nossa própria estética. 

 

Essa necessidade de aprovação externa é um reflexo direto do que se convencionou chamar de "complexo de vira-lata", uma mentalidade que esbarra no desejo constante de reconhecimento internacional. Historicamente, o topo da pirâmide social brasileira manteve um comportamento eurocêntrico, preferindo copiar tendências de centros como Paris ou Londres enquanto via os elementos populares nacionais como de "pouco prestígio" ou simplórios. Esse processo gerou um distanciamento em que a identidade nacional muitas vezes só é abraçada quando retorna ao país embalada como um produto de exportação "cool" por marcas globais. 

 

Ao analisar as raízes desse comportamento, Mariana Norberto explica que essa dinâmica está intrinsecamente ligada a uma herança histórica e cultural de subalternidade estética. Segundo a especialista, o Brasil construiu, ao longo de gerações, uma relação de profunda admiração por referências vindas da Europa e dos Estados Unidos, o que resultou na marginalização de códigos locais que eram vistos como simples demais. Para Mariana, quando grandes marcas ou celebridades internacionais incorporam esses símbolos, elas conferem a eles uma legitimidade que muda a forma como o próprio brasileiro passa a enxergar sua cultura. 

 

Entretanto, Mariana observa que esse cenário de dependência está passando por uma transformação significativa com o surgimento de novas gerações de consumidores. Há um movimento crescente que demonstra maior interesse e autonomia em valorizar a produção local, a cultura periférica e a diversidade estética do país sem a necessidade imediata de uma aprovação estrangeira. Em vez de esperarem que o "Brazil com Z" seja validado lá fora, esses novos atores buscam fortalecer o "Brasil com S", enxergando a inovação que já existe nas periferias e comunidades tradicionais como a verdadeira fonte de riqueza e identidade nacional. 


Pertencimento nacionalista e apartidário 


Com a Copa do Mundo de 2026 acontecendo agora na América do Norte, após as cerimônias de abertura que contaram com a presença da brasileira Anitta em Los Angeles, o movimento de retomada estética atinge seu momento definitivo. O torneio, o maior da história com a participação de 48 seleções, serve como o cenário ideal para que o "Brazilcore" deixe de ser apenas uma tendência passageira de internet e se consolide como um ponto de encontro nacional.  

 

Como observa a especialista Mariana Norberto, a Copa do Mundo sempre representa esse "espaço comum" onde diferentes grupos podem celebrar algo que faz parte da essência da identidade brasileira. 

 

Essa retomada simbólica busca permitir que o brasileiro volte a sentir orgulho e pertencimento em relação ao seu país, sem que isso signifique a adesão a um lado político específico. Através da moda e do comportamento, as cores nacionais estão sendo devolvidas ao uso cotidiano, ajudando a demonstrar que nenhum grupo ou vertente ideológica possui a "exclusividade" sobre símbolos que pertencem a toda a cultura nacional. O objetivo é um nacionalismo plural e inclusivo, que enalteça a criatividade e a força do "Brasil com S". Do país real, diverso e popular que supera as divisões dos últimos anos 

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