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A Copa do Mundo de 2026 já começou manchada?

  • Isabela Degaspare
  • 16 de jun.
  • 5 min de leitura

Marcada por tensões políticas, restrições a imigrantes e decisões controversas do principal país-sede, a Copa de 2026 pode transformar o discurso de união em um cenário de divisão. 


(adidas/Divulgação)
(adidas/Divulgação)

A Copa do Mundo de 2026 foi considerada pela FIFA como a maior e mais inclusiva da história do futebol , tanto em escala quanto em proposta simbólica. Pela primeira vez, o torneio será realizado simultaneamente em três países, Estados Unidos, Canadá e México. E mesmo com o espírito esportivo e a proposta de unir as nações, o torneio ainda possui um obstáculo que está barrando o seu sucesso. A fragmentação do cenário político." 


Fatores que mudaram o rumo de uma Copa


A Copa de 2026 será realizada com os Estados Unidos como principal sede, e isso coloca o torneio diretamente dentro de um ambiente político altamente polarizado e instável, principalmente pelo fato do país ser liderado por Donald Trump, que está em seu segundo mandato. Nesse contexto, a Copa deixa de ser apenas um evento esportivo e passa a estar inserida em um ambiente de disputa política ativa.

O segundo governo de Trump tem adotado uma postura mais rígida, especialmente no que diz respeito à imigração, transformando o tema em eixo central de sua agenda política. Medidas como o endurecimento na concessão de vistos, aumento de detenções e promessas de deportações em massa reforçam a ideia de controle de fronteiras como prioridade estatal. Esse conjunto de políticas não apenas mobiliza sua base eleitoral, mas também aprofunda divisões dentro do próprio país, gerando críticas de organizações de direitos humanos e de setores da sociedade civil.

Essa centralidade da imigração no debate público impacta diretamente a organização e a percepção da Copa. Afinal, o torneio depende da circulação internacional de torcedores, jornalistas e delegações. Porém, qualquer restrição nesse fluxo acaba interferindo no caráter global do evento. O risco de dificuldades na entrada, abordagens discriminatórias ou insegurança jurídica, para os visitantes, gera um clima de incerteza que contrasta com a proposta de celebração multicultural associada ao Mundial.

Além disso, há uma aproximação visível entre o governo americano e a FIFA, especialmente na figura do presidente Gianni Infantino. A relação próxima com Trump fica evidente na criação do "Prêmio da Paz FIFA", em 2025, com o republicano sendo o primeiro vencedor." A premiação virou alvo de críticas por ter influência do presidente norte-americano e apresentar contradições com o contexto atual do país — aumento de denúncias de violação de direitos —, levantando questionamentos sobre a neutralidade da entidade e o uso político do evento. A Copa, nesse cenário, pode funcionar também como vitrine de poder e instrumento de projeção internacional para o governo dos Estados Unidos.

Assim, mais do que um pano de fundo, o contexto político norte-americano se torna parte integrante da narrativa do campeonato. A combinação de polarização interna, normas restritivas de migração  e instrumentalização política do evento cria um ambiente em que o ideal de união promovido pelo futebol entra em tensão com a realidade. A Copa de 2026, portanto, chega aos Estados Unidos não apenas como um espetáculo esportivo, mas como um evento atravessado por disputas que refletem os conflitos do mundo contemporâneo.


Casos de barreiras migratórias já expõem limites de acesso ao Mundial


As preocupações em torno da Copa de 2026 não se limitam a projeções ou análises futuras — elas já encontram respaldo em casos concretos registrados antes mesmo do início do torneio. Episódios envolvendo dificuldades de entrada nos Estados Unidos indicam que essas ações rígidas do país podem, de fato, interferir diretamente na realização do evento. Um dos casos mais emblemáticos foi o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan. Selecionado pela FIFA, Omar teve sua entrada negada, mesmo com toda a documentação válida. Com isso, o juiz acabou sendo excluído dos jogos em que iria apitar na competição. Situações semelhantes atingiram também profissionais da imprensa e membros de delegações esportivas, como um fotógrafo da seleção do Iraque barrado na chegada ao país e o jogador Aymen Hussein, submetido a horas de detenção para inspeção.

Além disso, delegações de países como o Haiti enfrentaram atrasos e incertezas nos processos de visto, evidenciando um cenário de instabilidade mesmo para participantes diretamente ligados ao torneio. Jornalistas estrangeiros, especialmente vindos de regiões politicamente sensíveis, também relataram dificuldades na obtenção de autorização de entrada. Esses casos revelam um padrão: embora atletas e seleções ainda consigam garantir presença por meio de exceção institucionais, o entorno da Copa — que inclui imprensa, equipes de apoio e torcedores — já enfrenta barreiras que colocam em dúvida o caráter verdadeiramente global do evento.

Nesse contexto, a Copa de 2026 começa a ser marcada por uma divisão prática entre quem pode e quem não pode participar plenamente do torneio. Mais do que casos isolados, esses episódios reforçam as críticas de que as restrições migratórias dos Estados Unidos podem limitar a diversidade e a inclusão que a própria FIFA busca promover. Assim, o evento corre o risco de se transformar em uma celebração global com acessos desiguais, onde a presença internacional depende não apenas do futebol, mas das condições políticas impostas pelo país-sede.


Conflito entre EUA e Irã amplia desafios da Copa


As tensões entre Estados Unidos e Irã também ajudam a compor o cenário de incerteza que envolve a Copa do Mundo de 2026. Como principal país-sede, os Estados Unidos não ocupam apenas o papel de organizador, mas também de protagonista em disputas geopolíticas que vão além do esporte. O conflito com o Irã, marcado por ameaças, ataques e sanções; evidencia como rivalidades internacionais podem influenciar o ambiente de um evento que se propõe a reunir nações em torno de uma mesma celebração.

Esse contexto ganha relevância porque a Copa depende da presença e da circulação de países de diferentes regiões do mundo, incluindo aqueles que mantêm relações tensas com os Estados Unidos. Ainda que seleções e delegações tenham participação garantida, o clima político pode afetar torcedores, jornalistas e até a percepção geral do torneio, criando barreiras indiretas e um ambiente de maior desconfiança.

A seleção do Irã na Copa do Mundo de 2026, apesar de ter garantido sua vaga dentro de campo, enfrentou semanas complicadas devido à demora na emissão de vistos por parte dos Estados Unidos, que só foram liberados para os jogadores poucos dias antes da competição. Ainda assim, nem todos os integrantes da delegação tiveram o mesmo tratamento: dirigentes, membros da comissão técnica e profissionais de apoio acabaram tendo a entrada negada, o que levou o governo iraniano a classificar o episódio como discriminatório.

As restrições vão além da própria equipe. Torcedores iranianos enfrentam grandes dificuldades para entrar nos Estados Unidos, o que reduz drasticamente a presença do público do país nos estádios. Em meio a essa situação, a seleção foi obrigada a transferir sua base de treinamento para o México e deve entrar em território americano apenas nos dias de jogo, retornando logo em seguida — uma condição incomum em comparação com outras equipes.

Dessa forma, o embate entre Estados Unidos e Irã não aparece como um elemento isolado, mas como parte de um conjunto de fatores que colocam a Copa de 2026 sob tensão antes mesmo do apito inicial. Ao invés de funcionar apenas como um espaço de encontro entre culturas, o torneio se insere em um mundo atravessado por disputas de poder, o que reforça a contradição central da competição: enquanto o futebol busca unir, o contexto global faz o evento caminhar em direção às divisões, que são cada vez mais evidentes.




3 comentários


Miriam
17 de jun.

Excelente!

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Convidado:
17 de jun.

💚

Editado
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Renan
17 de jun.

👏👏👏

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